• Bruno Pernambuco

Pasolini e a Memória

\\ CINEMA

a reinvenção da invenção da memória se dá nas simplicidades- no campo aberto ou em closes, em alterações das expressões.

Por Bruno Pernambuco


Cena de O Evangelho Segundo São Matheus, de Pier Paolo Pasolini (IMAGEM/ REPRODUÇÃO)

Metamorfoses da memória acontecem. O diretor tem a inspiração e a reflexão a respeito da arte cinematográfica para traduzir essa mudança na transformação da imagem, que é ciência própria do seu veículo. A memória - cristã, camponesa, sagrada, luminosa - passa por grandes transformações quando é trabalhada por quem de tão intensa e profunda experiência a conhece a partir do ponto de vista daquele que lhe é renegado. O profano, como é hábito dos textos apócrifos, revela o sagrado em uma integridade sua muito mais completa. A imagem rica fala completamente por si, em seu retrato tão vivo empreende simultaneamente a multiplicidade de significados, e assim sua conexão lógica não tem de ser o tempo todo restabelecida. O seu encadeamento está na rima de significados de cada imagem e daquilo - múltiplo, dividido, contraditório — que instintivamente cada um sabe dessa memória.


A reinvenção dessa certeza — a reinvenção da invenção da memória — se dá nas simplicidades no campo aberto ou em closes, em alterações das expressões. Em sobriedade, amplitude, e arquitetura minuciosamente reta que essa remissão da memória se opõe à exuberância e à modernidade da música experimental. Na incerteza, ou na recusa, em relação ao destino da humanidade. No enquadramento de um anjo triste.


As obras históricas de Pasolini como Gaviões e Passarinhos, O Evangelho Segundo São Matheus e Saló, têm a força de um cinema maldito por compor, com maestria, a luz que emana do sagrado. Pasolini é um articulador de contraditórios e de ironia, que como multiautor, que não separa o domínio da forma cinematográfica da reflexão filosófica e filológica, da arte do romance e da elaboração da práxis política, sabe trabalhar essas contradições da imagem poética que se resolvem, nunca totalmente, na imagem em filme.


Como o é em Saló, a memória também pode ser subvertida, jogada, saturada ao máximo daquilo que quer esconder. A memória histórica pode ser invertida, o fascismo melhor revelado no seu fim, a violência do decoro e da ordem consumindo-os, a autarquia nobre, a igualdade, a coexistência, depurando-se no sadismo de sua destruição. As múltiplas faces de uma lembrança presente e ancestral se revelam, da beleza luminosa e estonteante da vida religiosa, traduzida nos enquadramentos arrebatadores e na poesia austera de O Evangelho Segundo São Mateus, à hipocrisia da vida burguesa, de seus valores codificados, de sua crueldade controlada. A unicidade de cada imagem, em seu lugar na história, é de se abrir simultaneamente para a inteireza dos sentidos - aguerridos, conflituosos, contraditórios - da memória.

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