• Matheus Lopes Quirino

Pecados da não carne

\\ ENTREVERES

Muitas perguntas para um almoço quase na faixa. Não fosse a dinâmica quase militar daquele lugar. Deixe a comanda na mesa. Sirva-se. Volte à mesa indicada. E a fila aumentava. Todos ali amigos dos vegetais, aliados à sra. batata.

Por Matheus Lopes Quirino


Era uma portinha nada charmosa, ao contrário do letreiro. Dez reais. Em Arial quarenta e oito, algo assim. Um pouco menor, outros dizeres de dar água na boca: coma a vontade. Junta-se um com o outro, dá-se fila (grande) na certa. Propagandas desse estilo não combinam com segundas-feiras chuvosas. A fila se apertava debaixo da marquise. Faltava pouco tempo para abrir, questão de minutos.

A excitação domina a dezena que espera, cinco minutos antes, falando espalhafatosamente, enquanto a moça do restaurante faz as apresentações. A conversa não para, nem na fila do buffet de saladas – ou todo buffet? Lembrei da Maria Paula, amiga carioca, e da sua saga no por quilo, tentando em vão não pensar nos perdigotos que dão um tempero a mais na comida. “Aqui o almoço é vegano, nada de carne, queijo, doces, pães...”, e a voz daquela mulher que mais parecia uma batata foi ficando inaudível. Nada de nada.

De repente, um susto: carne. Carne? Carne, de soja. Proteína de soja. “É proteína, não carne!”, lembrei de uma discussão de dois amigos. Enquanto um abocanhava um hamburguer de picanha, o outro, da não carne. Ele comia pensando em carne, o vegano. Hipócrita, falava em proteína para não macular a consciência. “Mas esse boi aí que você está mastigando...”. Ao menos pensar (por enquanto) não é crime. Ele estava comendo um boi, o vegano, mas um boi imaginário.

A que ponto chegamos? Mastigar um boi imaginário é absolutamente cruel. Comer um cheese burguer, não. Ponto. A questão é complexa. Mas, voltando ao restaurante, outro aviso logo na entrada: somos pet friendly. Obviamente, são veganos. É quase um pleonasmo aquele outro letreiro. Agora, os animais, quadrupedes, naturalmente, que ali estão são obrigados a viver o veganismo. Um gato recusaria um peixe? O cão, um delicioso osso repleto de carnes? O roedor de gaiola, simpático e lavado, diria não a um pedaço de queijo francês, dos bons?

Muitas perguntas para um almoço quase na faixa. Não fosse a dinâmica quase militar daquele lugar. Deixe a comanda na mesa. Sirva-se. Volte à mesa indicada. E a fila aumentava. Todos ali amigos dos vegetais, aliados à sra. batata. Naquele lugar, são devorados sem nenhuma piedade rabanetes, cenouras, cebolas, brócolis, cogumelos, tomates, rúculas, acelgas, mandioquinhas e até batatas!

Sobrou para a carne de soja. Aquela proteína hipócrita do buffet. Ela imita a carne, mas é como os covers de cantores. Parece, cheira, mas não é igual. Naquele reino de vegetais, regras e de animais famintos, comete-se um novo pecado capital: o da não carne. A gula é alimentada pelo preço. O lugar lota como bandejão de faculdade, e, como bandejão, o almoço sai devidamente caro.

Para lançar modas, então, a proteína que parece com a carne, vai existir também o frango fake feito de chuchu. O peixe à base de mandioca. Os crustáceos devidamente disfarçados de tomate – ou o contrário. O leitão de roça, aquele com pururuca, tudo feito de melancia, como aquelas obras de arte que fazem em festas havaianas. É só combinar bem, por, no universo paralelo, a maçã é feita de carne.

©2019 por Frente & Versos. Criado com Wix.com