• André Vieira

Chacal - Giovani Lucarelli

\\ CRÔNICAS

À la croisée des chemins, Lydie Frouard



Caso queira entender do que se trata essa seção de"PEDANTISMO", sugiro que entre aqui.

O sol mordiscava o rabo do dia ainda mordido pelo álcool. Na avenida desértica de transeuntes de redondezas e de passantes em busca de franceses, beliscavam por lá e cá ladinos, desperançosos com mais uma noite de mingua no plenilúnio, já noutros cantos ladravam como cães no cio apitando meretrizes mal-amadas e com olheiras que, por pouco, não tocavam nos bustos ornados de tomara-que-caia de tão pesadas e tão pequenos; e ao longe, mal iluminados por uma lamparina ainda acesa, na porta do bar que derramava água da pia de restos para estancar a sujeira da boca do lixo, via-se os assíduos cafajestes das mesas de capim e bigorna, de tacos viciados em mé e giz barato, um retrato fidedigno dos mascadores de fumo e empinadores de pipa baratos, moscados, ratos de carnes de segunda e apresuntados de primeira — copa, salame, toucinho e rabo, daqueles que arrebitam no primeiro toque de palitinhos de madeira.


A cena compunha o necessário daquela noite que durava meses, daquelas horas que congelavam o relógio no pulso de correia carcomida de couro, daqueles minutos serelepes, que badalavam a cada instante, afagos, no norte-diastólico rítmico da ânsia do prazer, do entorpecer, resistir e persistir na intifada de chatear o corpo e machucar a alma por meio das fragrâncias etílicas e dos buquês cancros, receados com mais de seis mil substâncias alucinógenas, estimulantes e refrescantes: uma salto estrondoso no oásis artificial paradisíaco — reconfortante para não dizer

solidário.


E foi ali, num bulevar em que o sol teimava a pegar que eu o vi, sereno, estático, degustando um palheiro malcheiroso e com fones de ouvido barato Phillips, cujo o som se misturava com o chiado do celular defeituoso e as orelhas de abano ruíam após o uso excessivo de rock progressivo ou pagode antidepressivo noite adentro. Fui logo enturmando com o esquálido leite azedo, fazendo mandigas, tragando por “tu”, quem raramente era trato por você:

—Tu tem um cigarro pra me inteirar, meu bom? Disse baixinho, receoso que algum passante da hesterna fosse aproveitar da janela e cair no colo caloroso da gentileza alheia.

O anfitrião das balas coco sabor câncer relutou em atender ao chamado. Repeti-me uma, duas; na terceira toquei-lhe o ombro e com a delicadeza dum obeso assolado pela fome em fila quilométrica duma franquia nojenta do Mc Donald’s, digo-lhe na flor — ou seria furor? — d’meus pulmões a oração que ser da noite receita com desejo fúnebre lh’é negado.


— Que mal te faz me passar um rolinho, um tubinho, um beijinho do passarinho de asas mórbidas de piche e coração de chumbo? Me fornece um pigas, rapaz Salva essa vai...Pelamor de deus!!! Não aguento mais saciar minha saliva em unhas malcomidas!! — Reiterando o chamado para vida, com os olhos engarrafados pelo álcool e a sede servida pela fumaça de palha no éter.


Encafifado pela chateação matinal, o homem, muito que cordial, deu-me uma bolacha na cara e, de quebra, ainda me presenteou, como adoro coisas açucaradas, com um tablete de mão espalmada bem na altura das espinhas por estourar e do nariz entupido. Só não pude agradecê-lo com mais veemência e clemência, porque já repousava os miolos no frio asfalto.


Acordo nos cinco ou dez minutos seguintes cuspindo sangue pelo nariz e assoando baba pela boca. Vejo uma página de caderno rasgada entre azulejos preto e branco e o meio-fio de branco desbotado; apanho o papel e aprendo a resposta para minha angústia na nóia, junto com a ela vem e-mail do azedo azedinho e um pequeno adágio da vida cotidiana.


Chachal

(ou como renasci no inferno)

Certo cabedal;

Futuro por além-muros,

Sinas de punhal.


Giovani Lucarelli




(Créditos foto capa: Natureza Morta com prato de cebolas, Vincent Van Gogh)

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