• André Vieira

Retrato do esfaimado - Ângelo dos Santos

\\ CRÔNICAS


Ilustração do livro Vidas Secas de Graciliano Ramos, Aldemir Martins




Caso queira entender do que se trata essa seção de"PEDANTISMO", sugiro que entre aqui.

Da mesma forma, caso queira saber quem é Ângelo, aconselho a todos para começar por aqui.


“Por quanto tempo, estrada de barro, porteira enguiçada, gado atolado, galinhada roubada, ratazana safada e colheita perdida, eu passei nessa vida que se conta nos grãos de milho da espiga madura: pronta pra virar canjica de tarde pra’ vovó que me costura um blusão ou pro’ tio zerca, desdentado que nem pente de Lilica, irmãzinha manhosa que não larga nem do meu pé nem pro banho de mar e pra pelada no domingo, quando pingo que nem tempestade correndo ribanceira abaixo na tormenta do arrasto? Êta cachoeira brada.

Não como queria, não como poderia, não como gostaria.


(Sê-lo-ia? Poder-se-ia? Reinventar-lho-mo-ia? Ou se remoía, caiu e ardia? )


Pe(r)dia: fome se sente quando a lágrima cai, quando saudade de paz invade, os pelo’ da nuca tudo se arrepia’, e a memória é infestada por poeira vermelha e por mugido de vacas tontas, esperando mão boba da hora da janta e a paulada certeira na hora do abate, longe e distante que nem céu bandeirado em dia de São João. O resto tudo é muxoxo de estômago vazio, de inveja da cuca criativa que se alimenta do pensamento que toma asas e da imaginação que cria tudo não há nada, nada, nada — a não ser nós mesmos e nossas mãos calejadas pelo trabalho.


E papai tem razão: ‘dessa vida só se leva o que se carrega no lombo e se prende aos pés, e se não se carrega, não se leva, nem se preserva: só se deixa por estrada o que termina na mata ou deságua n’água.’ Véio safado... sabia do segredo da vida desde o primeiro dia que nasci e melindroso e sereno como só, esfregava dia sim dia claro na minha cara, desde a primeira piscadela da moça por detrás da colinha e bem antes dos galinhos cantarem a alvorada, “levanta que serviço não atura desaforo!” Disparava que nem a espingarda que eleva nas costas pra caçar tatu e nos proteger dos homens maus que viviam à espreita na mata, pra infernizar aquilo que já era difícil: viver da enxada e ancinho, boiada e galinhada, copa e espuma....E papai nunca maneirou no colarinho....


Por mais sôfregos que fôssemos — e às vezes nos faltava até água pra afogar nossas mágoas —, éramos felizes por nossa fraqueza de pernas, nossas molezas de braços e nossa judiação de estômago...Pelo menos a claridade dos vitrais e a beleza dos santos, na capela da cidade, era sempre cintilante, como a primeira luz do dia que iluminava papai no sonho profundo.”


(Retirado originalmente de e-mail recebido em 14.01, e adaptado hoje à tarde)

Retrato do esfaimado

Engenho do arado;

Mugido martela o ouvido:

Arrasto meu rasto.


Ângelo dos Santos


(Créditos foto capa: Le Petit Déjeuner. Juan Gris)

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