• André Vieira

Ode ao civismo - Giovani Lucarelli

\\ CRÔNICAS

Hyde Park Barracks, Sydney Living Museums


Caso queira entender do que se trata essa seção de"PEDANTISMO", sugiro que entre aqui.

Da mesma forma, caso queira saber quem é Giovani, aconselho a todos para começar por aqui.


“Já estremecia quando me chamavam pelo prenome: ‘Giovani, venha cá meu rapaz, o coronel deseja falar com você’, a azia me subia à boca, o esôfago em chamas fermentava o fel inquieto: mastigava as palavras, muxoxava o mareio como dentro da embarcação de exercícios militares, ’claro, claro, Seu tenente, já já me apresento ao coronel’ e saia com a boina verde-cáqui entre os braços, cabisbaixo que nem cachorro ferido, do escritório do quartel, donde me deram uma posição ‘privilegiada’ por ser um ‘cabeça’ no xadrez e um zero-à-esquerda em qualquer troco que me colocavam pra pular, atirar, cozinhar ou vigiar. Inveja é pros fortes. Taxado como ‘pior praça da décima nona região, terceiro distrito, segundo regimento’, por deixado um bando de pivetes safados roubarem as mexericas da casa do Seu Constantino, brigadeiro aposentado que não fazia mais nada da vida que cortar caqui e plantar bananeira num quintal frutífero e iluminado ao lado de nosso quartel destinado às moscas, deixava meus fãs loucos com me viam:


‘Porra, muluque, tu não sabe que Seu Constantino é padrinho nosso? Com’é que tu me faz uma burrada dessas justamente no nosso turno, Gio? Porra pro inferno com tuas mandigas, teu palavrado embonitado, teu gingado de roda de cachaça! Aqui nesse inferno, temo’ que seguir as regras do regimento, caraio! Senão quem vai pro mastro, segurar tiro d’guerra, bandear aspira que não dá a mínima pra bandeira, ‘guentar cabo, tenente e general sacana; tudo puxa-saco de Seu Constantino e daqueles merdas do clube militar, sou eu, Porra, Giovani! Olha, só não te dou um cascudo’ eu mesmo porque mamãe me falava se só bate em homem na guerra ou quando assomado pelo álcool, assombrado pelo vício do ardente e d’bigorna. Mas aaaaiiiii, se eu te pego’


Me divertia com todo aquele pouco causo, com a pimenta bainhada chuchada no feijão da moçada, com o pó de mico espalhado pelo dormitório do alto-comando, as sambas-canções hasteadas ao mastro pelos aspira’ logo ao alvorecer, nas primeiras bandeadas da entrada de carne fresca do ano: “QUAL DOS MERDINHAS AQUI TEM OMBRIDADE DE ASSUMIR A POUCA VERGONHA?!” Entoava tenente Costa logo nas primeiras semanas do pessoal sabão-de-coco, gel-no-cabelo, espinhas-na-cara, que ingressavam no CPOR e tinham uma longa carreia pela frente pra mandar na gente, trouxas, que acreditavam naquele blá-blá-blá todo, lero brabo, de Nação-Família-Deus-Civismo-patriotismo-amor-à-bandeira e et cétera et cétera e talz — isso até me tira do sério quando falo desta merda.


Batendo na mesa de Constantino, temendo as bolachas e bofetadas, da Cia. daquele monte de lambe botas descaradas e engomadinhos malditos, o cabra me pede que me sente, puxa minha ficha com todos os quinquinquirins e farras que aprontei naqueles ano e com um sorriso tímido no rosto, daqueles que os dirigentes sínicos de instituições melindrosas ousam dar antes de falar alguma merda ou dizer alguma besteira, juntos os lábios rosados de oficial da reserva e com um risinho sádico disse, bem di-va-ga-ri-nho: ‘dispensado do serviço à Pátria e das demais atividades da Instituição. Major Godofredo vai acompanhá-lo.

Na segunda-feira seguinte começava minha estória como office-boy numa firma falida no centrão esquecido. Nunca me senti tão feliz por escutar o ‘dois suco’ um salgado’ da Liberdade. "


(Trecho originalmente publicado em livro de memórias que nunca será publicado, conhecido também como "ida ao bar da esquina com Giovani e seus dois sobrinhos", recomendo bastante.)




Ode ao civismo

Flâmula no mastro;

Sargento(,) dê juramento!

Frêmito da massa.


Giovani Lucarelli



(Créditos foto capa: Le Petit Déjeuner, Juan Gris)

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