• André Vieira

Enjuvelhecer - Arthur Hoffmann

\\ CRÔNICAS


Campo trigo com corvos, Vincent Van Gogh


Caso queira entender do que se trata essa seção de"PEDANTISMO", sugiro que entre aqui.

Da mesma forma, caso queira saber quem é Arthur aconselho a todos para começar por aqui .


“Por quanto tempo te esperei, te chorei, te ansiei? Por quanto tempo te desejei, te admirei, te almejei? Por quanto tempo, te fiz maior que a própria sombra, te sorri mais do que o meu próprio reflexo, te revi dentro dos lençóis e edredons da cama fria, roubando meu travesseiro e puxando a fronha da cama, num ato desesperado de se abrigar do frio dos Pinheiros e da geada do sereno? Por quanto tempo no espaço e na imaginação me vi produzindo ilusões em mente e desencontros em sonhos?


Por quanto tempo nossas tentativas frustradas, de nossos ensaios fracassados, de nossos encontros desarranjados, de nossos sentimentos amargurados me habitaram em noites em claro e em manhãs de pesadelo? Em que as pálpebras berravam afoitas pelo café esquálido e pelas bolachas de coco esfarinhadas, recheadas pelo trans e pela vontade abusada de botar o cigarro na boca e mandar todas aquelas crianças malditas — todas, todas, todas — ao buraco profundo de onde elas nunca deveriam ter rastejado de volta ?— Só Deus sabe quando me falta-lhe.


No deserto sórdido do meu lar, cuja areia branca e movediça da pia, da cozinha, dos sofás e da cama, vazia, ainda assolha meu cansaço e agonia de minhas jornadas exaustivas à escola e à terapia — saída furtiva da dor e do pecado ignóbil —, ainda me lembro, sem muita exatidão ou comprometimento, quando você passou pela primeira vez pela porta. Cintilando um sorriso, você me pediu que fôssemos à padaria tomar um café com leite ou qualquer coisa que lhe tirasse a azia do estômago e o amargo da língua depois de ter chupado um saco inteiro daquelas balinhas de pirata azedinhas; disse que só tinha o suficiente para minha própria conta e vício, que cigarros tinham me tirado o apetite, que logo o véu da noite me levaria a nocaute, mas você foi insistente e me arrastou praquela espelunca de batidas açucaras e glúten barato, como sempre se deram nossos encontros.


E foi lá, por entre os apresuntados e derivados do leite, que soube que essa dor nunca passaria e que os narcóticos finos nunca se bastariam pra pôr fim naquela ansiedade que crescia cada vez mais por entre a espinha e a medula. Você pediu um milkshake de flocos; já eu, desentretido com o revoar de vagas plásticas de cardápios engordurados e com o perfume de gorgonzola queimado na chapa branca do cozinheiro negro, pedi uma dose dupla de Jackie, pronto pra rebobinar mais um dia inútil em minha vida patética. Quando os pedidos chegaram, você aspirou aquela montanha dálmata em poucos segundos e espumando alegria e gordura hidrogenada pelos lábios, verteu meu copo rubro naquele colegial vazio: aquela colação de grau ficou marcada em meus olhos; e seus lábios, no meu coração. "


(Mensagem de WhatsApp recebida no dia 22 de janeiro)


Enjuvelhecer

Sozinho ao moinho

Desperta-me primavera:

Caminho por espinhos.


Arthur Hoffmann




(Créditos foto capa: Le Petit Déjeuner, Juan Gris)

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