• André Vieira

Viagem I - Guillermo de Luna

\\ CRÔNICAS

In the library, John Waktins



Caso queira entender do que se trata essa seção de"PEDANTISMO", sugiro que entre aqui.


Quando chegam os dez anos de idade e a morte do pai, o menino quieto e de olhar enfezado fica sob a tutela de conhecidos em Ribeirão Preto, enquanto a mãe e as duas irmãs voltam para a terriña (como ele sempre chamava a Argentina). Com a mocidade, a mudança para a capital e o ingresso no curso de direito do Largo São Francisco (que ele jura ter completado), o jovem leitor de Mário de Andrade e Manuel Bandeira se efervesce na vida boêmia. É nesse época que começa sua produção poética, nos blocos sempre presentes ao bolso da jaqueta de couro. Nessa época, ele dizia, que seus caminhos todos deixavam poemas, e ele, sem conseguir quantificar quantas centenas de folhas tinha rabiscado, estava certo que tinham ficado com ele aquelas que valiam a pena. Esse homem curioso e simpático, Guillermo pouco viajou fora as anuais visitas à família em Rosário, eventualmente cessadas por falta de quem visitar — por morte ou por outras razões.


Conheci Guillermo, e passei a frequentar sua casa, vizinha a de minha avó, já nos últimos anos de sua vida. Vivia no mesmo sobrado nos jardins desde aquele breve período, muitos anos antes, em que resolveu fazer a formação, deixando um pouco de lado a boemia e os

amigos para se meter nas entrelinhas da lei. Minha maior diversão era perder-me em meio à enorme estante que cobria toda a parede do escritório do poeta (título pelo qual ele não admitia ser chamado), onde entre as vastas coleções de Cervantes, Cícero e John Milton se embrenhavam aqueles pequenos livretos, geralmente não mais com de 20 páginas, de capa de couro —as edições caseiras dos poemas de Guillermo, que nunca de outra forma deixaram suas anotações. O que está aqui são os resquícios que ficaram desse naufrágio, além do que consegui registrar daquilo que ele elaborou em seus últimos momentos, tempo em que ele já não se havia com máquinas de digitação — guardava apenas na memória, e era capaz de citar com impecável precisão, suas derradeiras coletâneas.


A Guillermo de Luna (1933-2015).




Viagem I

Primeiro solar

Carta morta afoga-se

— água

Necessito falar.



(Créditos foto capa: Le Petit Déjeuner, Juan Gris)

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