• André Vieira

Jardins urbanos - Arthur Hoffmann

\\ POEMÁRIO


Saules pleureurs, Cody Tresierra


Caso queira entender do que se trata essa seção de"PEDANTISMO", sugiro que entre aqui.


Embora Arthur não goste de conversar, suas poucas palavras, sempre acompanhadas de um chiato chato de tosse de asmático, sempre falavam por si só, numa mistura rara de sabedoria e poesia, principalmente tendo vista a pouca idade do homem-moço que no verão próximo vai deslanchar vigésima sexta marcha e apagar a sétima velha, em memória do irmão ausente que ainda vem lhe visitar nas horas de aperto enclausurado no quarto.


De finos traços alemães, fina barba desenhada no rosto fino e silhueta esquia dessas de magérrimos manequins com mãos enormes, Arthur sempre se inconformou o corpo delgado e as coxas lânguidas que, em ataques repentino de ansiedade, chanquelham-lhe o corpo inteiro, estremecendo o próprio rosto do menino alemão, ainda com receio de ter saído de casa e com saudades ardentes do colo da mãe e com receio obtuso do abraço da pessoa que veio a chamar de pai, embora este, verdadeiramente falando nunca lhe tenha sido bom nem tenha povoado sua vida por muito tempo. Para Arthur, lembrar é voltar a seu ninho de espinhos; machuca, mas é o único lar que talvez tenha conhecido.


Deduzo esses pequenos fragmentos da "Vida Secreta de Arthur" ao visitar uma pequena escola suíça, no bairro dos Jardins, na Grande São Paulo Die Schule des Glücks, onde Arthur trabalha como professor do primeiro ciclo básico, com grande sorriso que lhe rasga a pequena boca. Em minha visita guiada pelo desejo de encontrar um colégio ao filho de Roberto, o moço alemão, assim como todos ali dentro do prédio, me trataram como se um fosse um irmão distante, prestes a retornar de longa viagem de caça ou de uma desventura que amargamente me arruinou. De súbito, Arthur bota suas longas mãos sobre às minhas e dispara: "só se há poesia, se já família", num sotaque difícil de se identificar de início. De início não entendo porque ele me disse aquilo, mas, exatamente uma semana depois viriam os primeiros hai-cais na caixa de e-mail.


No entanto, fica a dúvida: como ele conseguiu meu e-mail ou como ela sabia todos os meus quatro sobrenomes: Pinto, Alves, Campos, Vieira; é um mistério que ainda fiquei — dentre muitos — de desvendar do alemão que no mais impetuoso dos verões, como o teremos doravante, insiste em trajar, impávido, um casaco de lã preta e um cachecol com o logo da escola. Vá entender.




Jardins urbanos


Obreiro ciumento;

Salseiro sobre Salgueiro:

Relvado em cimento.


Arthur Hoffmann




(Crédito foto da capa: Bords de Seine de Argenteuil; Édouard Manet)

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