• André Vieira

Míngua da Rosa (Lua Nova) - José Ribeiro Perreira

\\ POEMÁRIO


Enfance dans la lune, Benoit moraillon

Caso queira entender do que se trata essa seção de"PEDANTISMO", sugiro que entre aqui.


Conheci José num desses mercado de pulgas escolhendo um vestido paetê numa arara temática dos anos oitenta, enquanto folheava malhas de renda e amontoava os macacões jeans desbotados. De início tinha ido àquela espelunca cintilante porque mamãe, sem tempo de levar meus primos a uma loja de departamento dessas que desse menos vexame — as tais Renners & C & A's da vida — , dona Stella quis porque quis inovar, levando os sobrinhos mais novos — e claro, arrastando o filho mais velho — a um boliche onde o único giz é do paletó Fatto a mano de 1985'.


Até que, de súbito, o curumim esbelto, trajando um tutu amarelo-chiclete banana se aproxima de mim e do vendedor que nutríamos um interessantíssimo —sissimo — papear sobre queijos mineiros e o último resultado do jogo do flamengo, na estreia da sensação portuguesa Jorge Jesus. Ornando um chapéu Panamá e e um colã róseo com um bojo um tanto quanto aberto, José logo ladrou sua profecia: "Com Jesus no Comando, o Flamengo vai viver de vento a proa!". De fato, seis meses depois, o vaticínio estrangeiro do guri, como ele mesmo gosta de se denominar, não poderia estar mais correto; só faltara dizer que um atleta da cabeleira dourada, assim como a sua, irromperia alegria nos corações de milhões e milhões de brasileiro. Embora fosse "cruzmaltino de carteirinha e coração", não desconfio que o José tenha pulado a cerca quando viu a vitória catártica do Mengão.


Assim com esses papos que vão, esses papos que vem, José, me puxando pelo braço — quase o arrancando do corpo, melhor dizendo — me diz que é geógrafo e que é entusiasta da boa literatura, neste momento, ao terminar de completar a frase, o bailarino barbado me faz carão e me passa seu número no guardanapo encardido nas bordas pelo molho barbecue da tenda de churrasquinho grego, e tingido no meio por um selo de lábios cor-de-dosa, recém-retocados após besuntar o rosto do vendedor — aquele mesmo do primeiro parágrafo — de carícias atrevidas. Desde aquele dia temos trocado e-mails inusitados, principalmente quando ele fala de seus gatos e como a placa tectônica do cone sul é a última que se mantém firme nesses momentos de terremotos. O mais curioso disso tudo, é que ele ainda me pergunta por minha mãe e meus primos sem nunca, de fato, saber quem são aquelas pessoas.



Míngua da Rosa (Lua Nova)


Semeio (d)o luto;

Jejum em corpo fecundo;

Floreio (d)a luza.


José Ribeiro Perreira





(Crédito foto da capa: Bords de Seine de Argenteuil, Édouard Manet)


©2019 por Frente & Versos. Criado com Wix.com