• André Vieira

Cacau e Cereal - Arthur Hoffmann

\\ CRÔNICAS


Foto: Sohie Bahamonde


Ainda não passava das sete quando o leite irrompeu o silêncio das maritacas do vizinho, e se juntou à emulsão de granola, amendoim, passas e outros líquidos sulfúricos que se fixavam no estômago preguiçoso e no intestino solto, ainda afoito, com a terceira xícara de café escaldante que lhe penetrava à carne. Não fazia nem vinte minutos que o Samsung me chacoalhava a sinfonia de Beethoven, que eu já tinha quase esvaziado a caixa inteira minha felicidade matinal vermelha — bom, entre um cigarro e outro, ainda me sobravam os boletins numéricos da peste, e mais algum meme perdido da madrugada adentro sobre Daniel e seus frades do Bê-Bê-Bê-zzzzzzzzzzz.


Do refúgio, ou melhor, do isolamento autoimposto, pouco importavam aqueles números distendidos ou aquelas discussões estiradas, recauchutadas, refratárias. Do interior da casca donde agora habitávamos eu, papai, mamãe e minha ex-namorada que por um infortúnio de natureza maior teve que se fixar conosco no dia do decreto da quarentena (vulgo, ontem), os dias pareciam mais iluminados, as jornadas mais leves, e as Dê-érres (sobretudo com Hannah), mais leves. É que devido à idade avançada dos pais dela, às distâncias dilatadas que os separam, e à grande dificuldade de Hannah se comunicar com tudo e com todos — afinal, ela é alemã e mal consegue dizer “bom-dia”, sem acusar a grande dificuldade técnica em repetir o banal gesto da manhã—, tivemos que instalá-la a despeito (ou seria à regalia?) de seus maiores desejos de mandar todos à merda e ir pr’algu motel mequetrefe, no fim da estrada.


Nosso término foi uma coisa um tanto inesperada, pra dizer o mínimo. É que faltam palavras, talvez elas não venham com tanta naturalidade ou fluidez se as contasse numa conversa informal ou num telefonema descontraído, para expressar a cena de Hannah me pegando pelos cabelos e arrancando à força tufo por tufo do meu couro cabeludo — tim-tim por tim-tim — , para enfeitar o vaso hermético recém-comprado, sobre aquele criado-mudo, coroado com rosas novas, recém-colhidas no jardim naquela manhã. Nada como duas sessões de máquina de pelos e mais umas vinte de terapia de choque não resolvam — no final, não sei qual delas doerá mais.


O que sei é que mantenho uma distância segura de Hannah desde então. Ainda conversamos, trocamos palavras, e dizemos um pro outro o que sentimos, mas a não vejo mais ali, não a tomo mais comigo: somos dois pássaros confinados a gaiolas diferentes: a dela, uma bolha anglo-germânica, é onde só se fala Thomas Mann, Schlink e Freud, come-se bem no almoço, janta-se mal à noite e belisca-se bem na madrugada, ao coro, quase em looping frenético, de Jeff Buckley e Leonard Cohen, em tons desafinados de hino gótico ou em joviais soluços fundos que vêm do canto escuro da sala.


Do meu lado, no mais escuro — você achou mesmo que eu ia dividir um cômodo com Hannah? —, as caixas de cigarros, os baralhos de cartas ciganas, as garrafas de laranja mantêm-se vazias, enquanto a pastinha de faculdade, a escrivaninha de trabalho e a prateleira de livros e artigos mantêm-se cheias e abarrotadas, sempre demandando mais e mais dum semidesempregado, vivendo de cursos à distância e revisões gramaticais patéticas para salientar o que ele enxergar todos os dias quando acorda depois de lavar o rosto:


você

fodeu

sua

vida.


O e-mail não volta, o job não brota, o telefone não toca. A ansiedade e angústia preenchem a cabeça vazia, e o medo de ser infeliz, de se provar fraco e insuficiente, devora-o pouco a pouco o pouco o que ainda não fez louco. Não escondo a tentação da faca, nem a vontade mórbida da corda, mas a lembrança da infância ainda é vívida: o que o eu-de-dez-anos-atrás ou melhor, o fedelho medroso, ainda com a mamadeiras em punhos teria feito numa situação dessas? Abraçaria papai? Fugiria pro colo da mamãe? Daria um soco no irmão que me mordia, e abraçaria aquele que a pouco nascera? Nada mais faz sentido a não ser as lembranças.


Da família, da graça, do fogo, da caça: laço ígneo que lavra na carne o ardor do sangue. Boas lembranças não resistem a um olhar sórdido de uma ex-companheira de confissões e encastelamentos sentimentais, ou a um “bom-dia” escroto de uma caixa de biscoitos terrosos cacau-cereal de todas as manhãs — nem alpiste deve ser tão assim ruim. Mas bons tempos, ou melhor, “os nossos bons tempos”, são aqueles em que podemos olhar dentro de nós mesmos, a tudo aquilo que passamos e fomos passados no transcorrer das décadas e no decorrer de séculos e dizer, estupefatos a nós mesmo: caralho; entre todas as vidas que vi, entre todos os que ouvi e entre todos os sonhos que vivi, aquele serzinho que se apresente à minha frente, refretado no espelho “é” eu? Uma pequena pausa inequívoca, de vírgula incorreta, numa antítese inexorável? Um breve pós-scriptum curto, de um tema ultrapassado, num livro em branco? Uma guerra espúria, de um déspota convicto, num deserto de razões? Sim, não, sim e claro, por favor.


E ao voltar viagem — como qualquer millennial engaiolado no seu paraíso particular de desilusões — , com sorriso bobo, meio cético, meio jocoso, olhar para abismo que se projeta sob seus pés e dizer sem nenhum nó garganta a maior verdade que habita seu ser: “mais café, querido?”



Coração ancestral


Chameja na pira:

Um sonho renasce em fogo,

Chama poesia.


Arthur Hoffmann

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