• André Vieira

Maçãs do pecado - Isabel Figueró Cruz

\\ CRÔNICAS


Caso queira entender do que se trata essa seção de"PEDANTISMO", sugiro que entre aqui.

Da mesma forma, caso queira saber quem é Isabel, aconselho a todos para começar por aqui.

Les fruits défeundus, Raymond Douillet



“É com algum receio que lhe entucho, entre as xícaras empilhadas de café azedumes e pós escarchados dos sóis anteriores, de vidas passadas e da mobilha ainda seca e pálida — dos dias e dias que não se visita um espanador de penas ou aspirador de sonhos —, mais uma manifestação íntima de meu istmo sórdido, mais uma palavra frívola em teu coração ávido, mais um recado tímido, de meninice tardia e desejo latente à flor da pele, para um homem sôfrego, refém de solidão que habita a mocidade estanca: a mostrar os dentes amarelos e jônicos dos requintes amargos da primavera que só se mostrou inverno e do verão e que não salienta. não enfrenta. não venta. Só vive à espera da trigueira que não voltou ou da caça a volta das pradarias do norte africano.

É na negação que encontramos os verdadeiros prazeres da vida; acho. Já pensou em todos aqueles vendedores de pipoca, engraxates de sapatos, serventes de pedreiros, vendedores de cachaça e ladinos e gatunos de todas as sortes que tiveram a vida devastada pelo não? Pelo não-existir, o não-suprimir, o não-se-deixar-ouvir, o não-dormir, o não-entender, o não-aparecer, o não-compreender e o não-ser. Quando o imperativo categórico do desaparecer bate à porta, há algumas coisas — esperadas — que podemos demonstrar face ao desconhecido, sobretudo para nós, filhos de famílias que tudo detêm e sabem, muito bem, quais caminhos trilhar e quais poços se aventurar; mas para essas pessoas, André (meu caro menino de devaneios e lamúrias invisíveis), o negar já participa da composição de suas fibras desde muito cedo: quando nossos ancestrais eram seus irmãos e irmãs de destino na Europa empobrecida e nas terras esfaimadas já somos parte de sua sina. Mas hoje; hoje não: somos a negação daquele destino de proibições e mínguas, apoiados talvez — não ser a certo — sobre as raízes desses mesmos irmãos e irmãs, só que agora de forma sanguessuga.

É talvez por isso — e porque eles sabem entoar samba nas calçadas e ressoar choros até altas horas albas —, que seus sorrisos são contagiosos e suas histórias tão ricas: porque até quando os espoliamos, devoramos a carne e retiramos as últimas esperanças de florescer nesta terra maldita, eles nos caçoam; e nos retribuem o sarro e sarna estrangeiros com a alegria transeunte que nos humilha e devasta.

Não é por isto que lhe escrevi esta carta, nesta tarde de ocaso e começo de chuva nas planícies. É porque talvez. Talvez, talvez. Eu tenha firmado terreno em algo tão eterno como o amor de nosso Senhor. Não posso dizer com certeza; contudo, toda vez me miro em seus olhos, naquelas joias esmeraldinas que se entrepõem no balançar de quadris, coxas, pernas e — me arrepia até os pelos da nuca te falando isso —, boca seca, e fissura molhada, onde descarrego o passado que me ampara as costas e maravilho, como em votos a Nossa Senhora das dores, naquela janela por onde nossos banhadas pelo sol o nosso futuro conjunto. É nessa mimese cósmica orquestrada pelo frenesi de anjos e santos, que a trindade eu-allev-deus vive em paz sob o teto da abadia, escudada pelo sonho do casamento na fé e revigorada pelo expandir de nossos corações, na coragem de confessar nossos pecados e no jurar, de dois pés juntos e de paletós e madeira já abotoados, que não há mais nada de sagrado do que o próprio amor.

E é assim, meu doce escriba de linhas tortas e dessincrônicas, que me despeço de ti mais uma vez — espero que não seja a última; expecto, e rezo todos os dias, que esta carta lhe chegue por boas e sabias mãos, tais quais de seus pais e amigos que tanto amo-lhe.

Recurdos de Allambra.

Isabel Figueró Cruz.”


(Carta recebida no dia 5.02)



Maçãs do Pecado

Fruta farinhenta;

Gemida numa mordida:

Vulva ciumenta.


Isabel Figueró Cruz




(Créditos foto capa: Le petit-déjeuner; Therèse Massot.)


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