• Lia Petrelli

persona non grata

\\ ALEXITIMIA por Rodrigo Qohen*


Acervo Pessoal de Lia Petrelli - experiência de pintura a partir de leitura do texto em áudio enviada por Rodrigo


"Jardins forma feitos para ordenadores,

jardineiros foram feitos para ordenar,

mas eu sou desordenada, a primeira transgressora."

A Paixão de Lilith — Pamela Hadas


A coruja vem em voo. Vagueia a noite tortuosa e pousa onde dormem Mulher e Homem. Protegida onde a luz não alcança, de quem a projetou num V. No lado escuro do quarto minguante, o tronco murmura. Poleiro ossudo que arranha sombras, nas pestanas a ave espalha leite de papoula, veneno de anjo que endurece o leito. Escamas ásperas como trepadeiras arrancam as folhas de figueira, torna o órgão líquido e bebe o liquor perolado. Brava nos grandes lábios, os pelos duros semeando agulhas no casulo. Satisfeita, a borboleta olho-de-coruja volta à camuflagem e observa o casal nudista que cala e consente, adolescentes impotentes, cujo prazer foi rapinado durante o bamboleio onírico. Saltitantes frívolos pelo jardim alucinógeno à beira duma crise nervosa provocada pela demasia de produtos multicolores, de plena adoração pelos animais servis. Serpenteando, um belo espécime sobe o tronco e se junta à observadora noturna:

Tá de olho no retorno ao paraíso? Ave! longe de mí. Quer o Homem de volta? Dios me libre de mi ex. Tão insatisfatório? Imaturo, sin ginga, solo transava por cima. E visitou-o mesmo assim? Lo que insinuas, solo existe nos sueños; ¿y tu? Sou a vitoriosa presença e vim causar a expulsão dessa ridícula ilusão. Deixa-los ser, são dóciles y nada agregam al mundo. A humanidade precisa crescer. Te ayudo a concebirla. Seu jogo é duro. ¿Por que no cresces y vienes con el juego duro? Preciso de mais gente. Estás me conquistando. Vamos fazer uma aposta? Siempre, serpiente de mi vientre caliente. Você tenta convencê-los a ficar no paraíso, eu tento-os que deixem. Se yo vencer, me ensinas el camino da serpiente insinuante. Se eu vencer, você os induz à luxúria a quatro.

A serpente ensaia o discurso: convencerá o elo mais fraco, a argola submissa que há de morder o fruto proibido e dar a ideia ao consorte. O que serve, o Homem come. Enrola-se pelo caule, dependura pelo galho mais grosso e espera até que a própria se aproxime. Das nuvens o Senhor comanda os pelados sem-vergonha: “não coma da árvore”, pois sabe que acordariam do transe e deixariam de apreciar os quitutes ilimitados, passariam a se entediar com a policromia dos pássaros e buscariam a própria criatividade. Nenhum pai quer reconhecer o arbítrio da cria, mas sabe que cedo ou tarde descenderá o parricídio. A Mulher chega à serpente:

Se comermos do fruto, morreremos. Certamente não morrerão! ele sabe que, no dia em que comerem, seus olhos abrirão, e vocês serão como ele, conhecedores do bem e do mal.

A Mulher estende o punho ao pomo corado, como os lábios umedecidos de prazer, mas a coruja desce e toma as rédeas do destino. Transfigura-se em corpo feminino, erótico e provocativo, desabrocha como a flor da rosa e interrompe o gesto da outra com espinho. Ela pega a fruta.

Diaba!? ¿O Hombre ya aprendeu otras posiciones, o permanece na misma? Gosta mais de ficar por cima de mim. Estarias mejor durmiendo em beliche que em par. Às vezes aceita de ladinho, mas diz que assim não consegue chegar lá. Quieres dizer gozar? Ai... não fala assim. ¡¿No gozas, Mujer?! Não. ¡No creo! Isso que me fala... não me sinto confortável. Solo piensas na comodidad; pelo amor que Dios no dá! Blasfêmia! Parecen caracoles, bebiendo esta água soporífera. Sapo e quem? ¿No sabes o que Ele põe para deixar-te fuera das ideas? Não sei. Me esqueci que no sabes nada; faz así: escucha a la serpiente, engulate esta porra e dá pro teu Hombre.

Ela pega outra, passa adiante, e vai assoviando com a primeira fruta, Leviatã em mãos. Passa tortuosa pela bicha de joelhos contemplando o criador no trono de marfim. Ela fura, olha Ele com peçonha e destila:

Lo tinha em um pedestal e lo admiraba como artista; Lo tinha como respetable, pero me equivoquei; foste a mi casa com três anjos para tomar café da mañana a precio de banana y ainda pediste descuento, pidió para quitar la música, pidió que me calasse e que no miren pra sua cara; Eso fue humilhante; usted carece de humildad; entonces eu exijo que tu... PLAU!!! (fruto ao chão, enquanto os cacos espatifados se divertem). Nunca vuelva y me ofenda. NUNCA!

O senhor, estupefato, perde as palavras. Nem viu vindo. Está zonzo em sua própria espiga de psicodelia fajuta. É comerciante criativo, com nada único, sem autenticidade ou expressão orgânica. Domesticou as imagens e deu falso acesso aos bajuladores, aos bens de falência fabricada. O divo sentado com a bundona branca no trono glorioso, vestindo a coroa crespa reservada ao futuro filho, alheio no ego gigante e emitindo tanta luz que as bestas enfileiradas tinham que vestir óculos escuros customizados. Esperavam colher autógrafos no que o Senhor já nem mais fazia, mas mandava fazer. O que fez foi uma estética publicitária usada para estampar suvenir. A única obra que foge às características de todas as outras é aquela espatifada.

A bicharada mexerica: uma diz “me sinto um pouco mal por Ele, o que é raro”; pombos-correios repetem como papagaios a mesma nota pela a fauna afora, curando a notícia como a vaca faz com o queijo; um mico come a banana colada na parede; o rato vende panfletos de protesto dilacerados no ato; um panda inspirado destrói o vaso ancestral da dinastia dos dragões; cachorros de balão dão o ar das garças; galinhas especulam o preço que valia o fruto - agora batizado de maçã. Aos adoradores, Ele divulga a nota oficial pela trombeta dum arcanjo:

“O incidente ocorreu no passado, no qual todos podem ver que fui vítima do demônio, que foi a uma de minhas galerias e quebrou uma peça pesada que, em pedaços, poderia ter causado danos a mim. É lamentável, a integridade física colocada em risco naquele momento. Infelizmente, há quem quer fama às custas do meu propósito. Não admito desrespeito. A heresia é muitas vezes injusta e os profanos não estão preocupados com a verdade. Gostam de confusão, drama, negatividade, de julgar sem analisar os fatos. Vou continuar minha missão no mundo, que como nunca precisou de amor, felicidade, esperança e otimismo, precisa de mim.”

Enquanto o Senhor se preocupava com o fragilizado semblante público, os quatro corpos enroscaram-se num só nó. As riquezas da criatividade fluem pelas mãos suadas e são postas a uso das nuvens. Trovoa nas partes que pareciam adormecidas. Chove rio Ipiranga que desce ao mar Vermelho, vulcões nas virilhas enchem conchas de sangue menstrual, babam pelo queixo, palpitam corações eretos, bombeiam fluidos proibidos, rebentam a embocadura das línguas que abrem ventres nos crânios de serpente, derretem os cornos das cavernas. Estrelas espasmam no desmoronamento. Elas regozijam-se: “se não somos nós, os dois ficam na mão, chupando o dedão”. Eles masturbam. A conquista é uma loucura universal de gozo e éter pelo céu teologal. As sementes germinam raízes penetrantes e os discursos são vazios amassados em bolotas para acender fogueira. Espinhos da roseira-brava queimam incensos e floresce a volúpia em fumaça.

Post Scriptum: este texto foi psicografado a partir do dia 13 de agosto, dia de LILITH, padroeira da Magia, dia da bruxa solta encarnada em corpulência espinhosa, com batismo profano de Madeleine, como o caule da rosa-brava, quebrou precioso fruto de seu ex-ídolo, alguém de “grande ego, personalismo e carência de modos” que a humilhou. Ela fez questão de afirmar, em portunhol selvagem, que o glorioso perdeu credibilidade, respeito e admiração, só restando rejeição e repúdio, sendo então considerado: persona non grata.


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*Rodrigo Qohen, 93, são paulo. poeta, editor, jornalista, tradutor. dos livretos de poemas entre a vertiginosinagem (baboon, 2018) e dente desperta (baboon, 2019); editor da Revista Vidro (2018), e da baboon impressões. Tem escrituras poéticas depositadas no blog quimera delirante.


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(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da FV)

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