• André Vieira

Pregado à porta do meu Templo

\\ CONTOS

E desta coroa, de espinhos, posicionada na cabeça e levada ao cerne como o Senhor morreu, só posso aspirar; pois dizem que é para este inferno que ladrões como eu vão.

Por Isabel Figueró Cruz, Colaboração para Frentes Versos


Pintura: Crucificação de São Pedro (c.1600)/ Caravaggio


1.Do astro que se põe atrás da montanha, só devo sorrir; pois foi de sua penitência de arrastar o dia, arar as nuvens, e lavrar a terra que pude apanhar os pães em mãos e cheirar os frutos que vêm do forno: da morte duma vida para o nascimento de outra.


2.Das lágrimas que respingam no rosto, só devo ponderar; pois são sinal que minha vida teve sentido em todos seus descaminhos: que meus atos tortos verteram em solos férteis, e que meus trapos rotos tornaram-se abrigo oportuno quando não tive nada além de mim mesmo, minha fé: minha solidão.


3.Da falta de ar que arfa do peito, só devo agradecer; pois demonstra que antes de tudo, fui humano. Cometi estripulias, contei mentiras, colhi alegrias: algumas flores pelos jardins, algumas sementes pelo mundo. Cães, gatos, papagaios. Trabalhos forçados, empregados moderados, prazeres ilimitados. Uma bela família. Tudo vale à pena quando somos felizes: quatro paredes solidas, três cadeiras de madeira, duas tigelas de prata e um teto sob as estrelas. E, quem sabe? Um futuro por entre pares de sandálias empoeiradas.


4.Da água que me vem à boca, só devo me lembrar; pois foi de sua vida que nasceu a minha. É de teus lábios, brônquios báquicos, que soube o quê, primeiro, foi amar. De tomar o ar e navegar: vagar em vagas vagas deste teu azulino mar; e me encontrar no teu desencontro de bruma e espuma, me perder em seu começo ao longe, no horizonte; e nunca lhe duvidar, esquecer e questionar, pois és ti meu primeiro Senhor e último mestre: gentil nas lições e traiçoeiro nos ensinamentos. Tal qual a maré que assola a casa dos desavisados.


5.Do chicote que vem-e-vai das mãos, só posso lamentar; pois o crime maior daqueles que embainham o gládio e empunham o açoite é serem algozes da própria carne e carrasco da própria alma. É pelo banhar de sangue inocente, e pelo manchar de vidas, famílias, culturas puras que nascem covardes: por trás de seus elmos respeitosos, suas espadas imponentes, seus escudos honrosos e suas armaduras impenetráveis, covardes lavam, todos os dias, a vergonha da cara com a sombra do medo de serem ínferos, menores, reles: covardes: a serviço da“justiça”que melhor os servir e da morte que melhor lhes couber.


6.Do corte dos pregos e do sangue de chagas, só posso respirar; pois sinto, agora, a ira dos homens e a piedade dos deuses. Ao longe, o vento apruma, os andaimes sobem, as crianças choram, os gritos ecoam; e mulheres entoam, bradam e cantam preenchendo a cidade desértica com fé de guerra e luzes quiméricas, desejando passagem rápida aos Pilatos condecorados pelo jugo dos reis e condenados pela indiferença dos homens. Destas vestes, coladas no intimo e afundadas no istmo, do peito e da alma, aprecio o valor de ter sido filho do mar e rebelde em terra; destas marcas, que me cobrem os pulsos e me expulsam o sangue, admito, por todos meus pecados, andanças e errâncias que fui filho errado, em descaminhos e moinhos nem merecem teu carinho, Pai; destas correntes donde transpiram os humilhados e morrem os inocentes, ávidos pela própria morte e certos da própria culpa, desejo, enfim: que meu sacrifício, em calvário, não seja mártir, nem exemplo; não sou digno absolvição, nem valho lamento.


7.E desta coroa, de espinhos, posicionada na cabeça e levada ao cerne como o Senhor morreu, só posso aspirar; pois dizem que é para este inferno que ladrões como eu vão. Sofro, no entanto, não pelo castigo divino ou arrebatamento impiedoso, sonso, choro pelos gritos no fórum, pelas bestas soltas às ruas e pela monstruosidade livre em minha execução, acusação e pré-exumação. De nada vale sentenciar o culto de outros deuses ou a língua de outros povos, se o inimigo mora a mesma casa que nós: nos domina, nos vigia, nos culmina: nos instiga e nos extirpa, como flores ressacadas após a passagem do inverno. Como velas acesas no templo ou como pétalas tensas de dente-de-leão sopradas contra o vento: partimos.


8 É só pela lembrança, do sorriso e do sentimento que posso existir; pois é na couraça do coração, no intimo do istmo, que vive a chama inextinguível de nossa fé invisível. É lá, onde eu, teu avó e deus andamos e te esperamos, pela alvorada; é lá, querido, filho, que poderás, um dia, nos reencontrar no fim da jornada.

Laus Deo, ex-corde

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