• Matheus Lopes Quirino

Provocador, Daniel Arasse contrapõe crítica acadêmica de arte em livro

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Em Nada se Vê, seis ensaios sobre pintura ganham a vitalidade de uma boa conversa

Por Matheus Lopes Quirino

Daniel Arasse, 1999 (Imagem: Bianchetti Stefano / Leemage - AFP).

No ano em que os museus de todo mundo fecharam as portas, o momento pede um olhar cuidadoso para além do mergulho das telas eletrônicas. Em Nada se Vê, o historiador Daniel Arasse aguça o olhar para seis icônicas obras da história da arte, traçando paralelos incomuns a partir de uma narrativa tão sedutora quanto crítica à forma de ver o cânone. Nos seis ensaios sobre pintura, tem-se a impressão de estar tão perto possível tanto de Arasse quanto dos quadros.


São eles, Marte e Vênus surpreendidos por Vulcano, de Tintoretto. Na sequência, o historiador começa uma obsessiva narrativa em torno de um caracol, no quadro Anunciação, de Francesco del Cossa. Um salto para Um olho negro, sobre a Adoração dos Magos, de Bruegel, ficamos diante de uma discussão sobre a figura de Maria Madalena, e a representação do feminino em afrescos e as madonas. Ainda sobre o arquétipo Mulher na arte clássica, Arasse lembra o mestre Ticiano e sua Vênus de Urbino, para arrematar com Velásquez, na pintura As Meninas.

Fluída e muitas vezes cômica, a prosa de Arasse atrai veteranos e iniciantes, leigos e estudiosos da história da arte. Ele debocha dos colegas academicistas, cutucando-os em prol de uma originalidade. Embasado, evidentemente, Arasse, por mais hábil comunicador que seja, é, sobretudo, um teórico e mostra a que veio. Ele não precisa de pomposidades para expor suas credenciais, o faz com naturalidade e, até certo ponto, de forma sagaz. No primeiro ensaio, "Carta a Giulia”, é pela epístola que ele resolve questionar os métodos da crítica ortodoxa academicista, onde, em suas palavras, tudo tem de ser provado, restando pouco espaço para falar sobre o olhar.

Ao longo dos textos, quando o historiador critica a forma da escrita dos acadêmicos, ele lança uma provocação pertinente salientando inúmeros textos da Academia onde o objeto em si é relegado ao segundo plano, para que, por questões de validação formal, análises cânones passam a ter mais peso intelectual do que impressões autorais. Um engano custoso para a crítica de arte. Abrindo essa discussão, ele mostra uma alternativa a essa abordagem comentando o quadro Marte e Vênus surpreendidos por Vulcano quase como um roteirista de novela. Ele expõe detalhes tão humanos dos seres mitológicos, colocando em xeque o conceito de divindade na pintura (este ser casto, onipotente) e dando os melindres de bandeja. Do amante embaixo da cama, uma clássica esquete, ao cupido embalado no sono, esse prosaico libidinal poderia lembrar alguma das Comédias representadas na Grécia Antiga, munição referencial não só para teóricos, como até os teatros de Molière e Shakespeare.


O leitor é instigado a permanecer no ensaio, a crítica tem movimento, e fragmentos da pintura são ampliados nesta edição da editora 34, o que colabora para a compreensão dos detalhes, um ponto positivo para o treino do olhar crítico.Ele bate nesta tecla, a da autonomia, e parece soar até anacrônico nos tempos atuais, a considerar o isolamento que adiou ou cancelou exposições, tonando-as virtuais. É uma opção observar a partir de casa, uma passividade redobrada? Talvez. O lado bom é que se amplia, se pesquisa. O lado ruim, é a falta de aura artística dos nossos computadores.

Arasse pouco se importa em preencher as lacunas do livro que, para iniciados, às vezes apresenta um salto muito audacioso. Ele fala com tamanha naturalidade que dá a impressão de estar em um despojado TedTalk. Ele cita bastante também, críticos notórios como Gombrich, Alberti a versículos da Bíblia. Os ensaios incentivam a autonomia (ocular, intelectual, emancipatória) do leitor, dando instrumentos e lançando perguntas para que, individualmente, sejam postos em debate elementos que muitas vezes passam despercebidos em um quadro.

Em tempos de culto exacerbado à imagem, em que horas são gastas à frente de um falso espelho, pode parecer um exagero contemplar um quadro por mais do que uns minutos em uma exposição. Ato antiquado, a observação tem lá seus rituais que fustigam as investidas da ansiedade, do vício em telefones celulares e redes sociais, onde banalidades se proliferam em sedutoras postagens pensadas para aprisionar o olhar ao cárcere da banalidade. Nessa auto condenação do intelecto, a velocidade é danosa à sensibilidade.


Nada se Vê é um compilado para se divertir e pensar fora da caixinha. Os ensaios se complementam por terem diferentes tons e propostas de escrita dissonantes, fazendo sentido em seu conjunto. Claro, em matéria de arte, nada é comparável. Sobra para o caracol do segundo ensaio um destaque especial, esta criatura que ganha uma personalidade singular do historiador. É hilariante e consistente, em matéria de análise, a gama de pontuações requintadas pelas retinas astutas e pela pena cáustica de Arasse, que promete não ser hermético, às vezes o sendo inconscientemente.



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TÍTULO: Nada se vê: Seis ensaios sobre pintura

AUTOR: Daniel Arasse

EDITORA: Editora 34

ANO: 2019




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