• Matheus Lopes Quirino

Publicações miram no poder das redes sociais de disseminar trabalhos e desmistificar o nu masculino

\\ ESPECIAIS


Os perrengues e sucessos de quem hoje fotografa homem pelado


Por Matheus Lopes Quirino

ALTERNATIVA. A Uncut, uma das referências, hoje, para quem se aventurar no mundo dos nudes artísticos. crédito: Gianfranco Briceño (reprodução)


Para começo de conversa, o fotógrafo gesticulava muito, enfático, explicando, com brilho nos olhos, como cada canto daquele apartamento miúdo poderia ser útil para um bem-sucedido enquadramento. Ainda vestido, o jovem Ramiro* aparentava insegurança, enrubescendo, logo de cara, quando foi apresentado a este repórter, à época fazendo um frila para a Folha de S.Paulo. “Por favor...”, tartamudeou, “Pensei que ia ser algo pequeno, não quero que meu pai veja meu bilau na capa da Ilustrada, enquanto toma café da manhã”. E a decisão coube exclusivamente ao estudante de cinema de uma faculdade privada de São Paulo. Ele persistiu, despindo-se, enquanto me transfigurei numa estátua no canto da sala, com o celular desligado a pedido dos dois.


Durante quase duas horas de observação, fotógrafo e modelo estabeleceram uma intimidade formidável. O homem com a câmera se contorcia como uma bailarina na ribalta, a fim de captar detalhes não convencionais daquele corpo ora magricelo, ora na estica de um dândi paulistano. Ao fim do ensaio, já escurecia e Ramiro, de cueca box branca Calvin Klein, abafava com as mãos nodosas um risinho tímido, “Apaga essa, estou horrível”, pedia ao já amigo fotógrafo, enquanto crivava o resultado parcial daquele ensaio, pouco antes de sairmos do local e cada um tomar seu rumo noite adentro.


A experiência ocorreu nos idos de agosto de 2019. De lá para cá, abril de 2020**, houve uma queima de arquivo. Tanto o fotógrafo, como o modelo mudaram de rumo na vida. Um partiu ao exterior para cursar MBA, o outro deu-se por vencido pelas pressões da vida “de adulto”. Ao que sei, arrumou um trabalho convencional. Como prometido, não voltaríamos ao assunto. Do acordo de cavalheiros, fui autorizado a escrever omitindo nomes, em ipsis litteris dos dois “garantindo total sigilo”. Acreditem se quiser, eram tímidos pra cacete.


No dia 14 de agosto entreguei uma primeira versão desta matéria ao jornal. Mas ainda não estava convencido e por pouco não abaixei a guarda e descartei meses de pesquisa mergulhado em material homoerótico. Não fui com o texto, faltava mais, jogaria a toalha. Foi quando, no fim daquela (quente) semana, descobri que uma revista virtual de fotografia masculina, a Cactos Magazine, realizaria um ensaio para seletos convidados em seu estúdio. Seria uma corrida contra o tempo mudar toda pauta. Não teve jeito.


Se fosse morrer na praia, que fosse na de nudismo. Liguei para o editor da Cactos, o Luiz Meloc, pedindo um voucher para a sessão. Desenhei na imaginação um requintado ensaio, com luzes grandiosas e muito laquê disperso nos ares, algo com pé no psicodélico, como em Pink Narcissus, um clássico do cinema gay (1971), cujo livro editado pela Taschen inspirou, através das décadas, gerações de idealizadores da fotografia homoerótica. Meloc ainda tentou me vender um ingresso da sessão que ocorreria no sábado, insisti no voucher, um dia antes ele cedeu, ainda tinha uma vaga não preenchida. Lá foi eu.


Sábado, 17 de agosto de 2019. A sessão começou às 14h, num sobrado da Vila Mariana. Fui recebido por Meloc e um pug, animalzinho de estimação do casal que cedeu a casa para o ensaio. Ao subir o lance de escadas daquele estúdio-casa-emprestada, tudo não passou de uma sala, com uns cinco homens em círculo, constrangidíssimos ao serem anunciados ao repórter. Eles lá estavam na condição de mecenas de um projeto que, nos moldes de hoje, caberia como uma “Playboy, lado b”.


*

O pug passeava livremente pelo estúdio improvisado. Aos poucos, perguntas iam surgindo dos moços, cada vez menos tímidos. Meloc ambientou bem a sessão, mesclando histórias de sua trajetória como fotógrafo experiente, desmistificando o nu, sem omitir causos divertidos dos bastidores de editoriais que participou em revistas como a Vogue.


O que começou na experimentação, tornou-se um bem-sucedido projeto. A Cactos Magazine tem mais de quinze mil seguidores no Instagram. Mesclando modelos amadores e profissionais, a revista, que teve início em junho de 2018, conta com dezenas de apoiadores. Detalhe, conta Meloc: “Hoje, um pouco mais da metade é o público masculino, mas não era assim, as mulheres eram o público consumidor em maioria”.


AFIADA. A edição digital da Cactos Magazine.


Segundo o fotógrafo, o projeto cativa por mesclar um apelo erótico a algo casual. Na preparação das sessões, Meloc gosta de brincar com luz natural, com objetos de improviso (banquinhos, caixas, panos), e por aí vai (des)artificializando seus modelos. “Prefiro que eles cheguem com pelos, sem essa estética do limpinho, arrumadinho”.


Na sessão, ele fez questão de testar as habilidades acrobáticas de dois Brunos, xarás que já haviam participado de outras edições do ensaio de Meloc. “A segunda vez já é bem mais tranquila”, conta um deles, morador do bairro da Consolação, enquanto justificava-se ao já consternado fotógrafo, “Por que você fez a barba, porra?”, brincou Meloc.


A bacanal das fotos requer habilidade. Dos contorcionismos entre dois esguios bancos de madeira, ao abaixar e levantar num minúsculo jardim de inverno, os Brunos, dois homens nada esguios, se mantiveram na pose de modelo, com nariz em pé. Interagindo com a turma, cada vez mais atenta a outros detalhes dos modelos além do nariz, os olhos trocam os pontos de fuga. “Aquilo lá é apenas um detalhe, nariz não é documento”, brinca o sorridente Meloc.


*

Improvisados, fotógrafos e editores de zines sobre nu masculino têm, graças à internet, seu trabalho amplificado a públicos diversos. Virtuais e impressas, as publicações encontraram, principalmente no Instagram, um canteiro sedutor para florescerem. Páginas como a Cactos conquistaram milhares de adeptos de todas as idades, entre fãs e haters.


Além de revistas virtuais, publicações conhecidas no meio, como a Cactos Magazine ou The Lonely Project, o impresso também dialoga como troféu para os fotógrafos. Celebrando a conclusão de um processo, muitas vezes realizado a duras penas, como antigamente, as revistas passam de mão em mão. De tiragem modesta, tendo várias delas tirado menos de mil exemplares, não é em qualquer banca que se encontra uma revista de homem pelado.


O atendimento é personalizado e, geralmente, o fotógrafo conhece a história do seu consumidor e modelos. Para além da interação virtual – pois no inbox alguns deles trocam de figurinhas a nudes –, estas publicações acabam parando em livrarias alternativas, espaços dedicados à fotografia e arte, como é o caso da feira Tijuana, com edições em São Paulo e no Rio, onde o trabalho de João Penoni, fotógrafo e idealizador da revista Dot Zine foi bem recebido pelo público de carne e osso.


VOYEUR. foto de Alair Gomes.

Penoni fotografa na praia de Ipanema, como fez Alair Gomes (1921 – 1992). Pioneiro na fotografia homoerótica, aquele engenheiro civil de janela indiscreta, morador da Prudente de Morais, cuja vista através dos prédios da Vieira Souto lhe renderam lendários cliques de banhistas besuntados em óleo bronzeador, com bíceps fortes e até tanga de crochê. Lendário, Gomes é referência para quem hoje fotografa homem pelado. Um exemplo de coragem, ele atravessou a ditadura como um voyeur. Mais tarde teve seu trabalho celebrizado, tendo sido contemplado com uma bolsa de pesquisas da Fundação Guggenheim.


Quem também é referência nesse ramo da fotografia é Herbert List (1903 – 1975). Célebre membro da agência Magnum, List é relembrado não só por seus trabalhos excepcionais retratando os jovens daquele paraíso perdido que era a República de Weimar, no pós primeira guerra. Ele volta como o personagem Joachim Lenz, no clássico O Tempo, reeditado pela editora 34. No volume, acompanha o romance fotografias primorosas que ilustram o espírito libertário do romance.


O templo de Posseidom, por Herbert List (agência Magnum)


Recusado inicialmente pelo editor Geoffrey Faber, por ser considerado imoral e pornográfico, o livro ficou engavetado por meio século, vindo à tona, pela primeira vez, em 1988. A censura existiu e ainda cerca obras de arte. Literatura, pintura, fotografia, cinema e dança são algumas das artes que, apenas apresentando os corpos como eles vieram concebidos ao mundo, sofreram assim um ardil por parte de burocratas puritanos.


A lista de contas suspensas pelo algoritmo incomoda os gerenciadores de muitos projetos dessa natureza naturista. Só e nu em pelo, o performer Ciro MacCord teve a conta apagada de seu projeto Tropocorpo – A nude (self)photographer três vezes. Acossado pelos argumentos do aplicativo – que apagam rapidamente conteúdo erótico, sem critérios subjetivos sobre o que seria pornografia e, mais, o que tanto incomoda –, MacCord debandou ao Twitter e lá recupera gradualmente seus seguidores.


fotos cedidas do projeto Tropocorpo – A nude (self)photographer


Entre a pornografia e a arte, a fronteira é tênue e os trabalhos contemplam diferentes pontos de vista, frequentemente esbarrando em algoritmos que censuram imagens. Quem também enfrentou essa cruzada moral no Instagram foi o artista visual Gianfranco Briceño, curador da Uncut Fanzine, revista impressa, também no Instagram, que explora uma imagem masculina mais andrógina, misturando elementos minimalistas e da arte contemporânea em seus ensaios, ele, que realiza um dos mais notáveis trabalhos artísticos de fotoarte erótica, não está isento da censura do algorítimo, principalmente no Instagram.


*foi usado nome fictício


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