• Giovana Proença

Quadrinista que retrata o universo à sua volta, Lígia Zilbersztejn vê a vida com mais dúvidas

\\ ESPECIAIS

"Acho que a tirinha, ainda mais objetiva, consegue com muito pouco transmitir um recado, dar uma opinião. Uma resposta com poucas curvas."

Por Giovana Proença

(Imagem/reprodução: acervo virtual da quadrinista).

“Eu gosto das palavras porque elas são ambíguas”, diz Lígia Zilbersztejn. Quadrinista formada em arquitetura, a artista valoriza as letras em sua produção. Coloca-as no mesmo patamar que a ilustração, pensa as palavras como um desenho, “um jeito de pensar, de alargar os sentidos”; conta para a Frentes Versos. A composição parece funcionar: o Instagram, rede social usada por Lígia para divulgar sua arte, é seu portfólio dos quadrinhos, ilustrações compostas no estilo gráfico bem definido – ainda que ela diga que não vê coerência em seus desenhos – que se fundem às frases com alto teor reflexivo.


Laerte e Lourenço Mutarelli desfilam nas influências da artista, que destaca o modo como Millôr articula imagem e palavra. Não deixando de lado os reflexos literários, Lígia conta que a leitura de O Torcicologista, Excelência, de Gonçalo M. Tavares rendeu várias ideias de quadrinhos. Cita também nomes de peso da literatura mundial como Cortázar, García Marquez e Virginia Woolf. A fusão de nomes renomados da tradição literária universal e de reconhecidos quadrinistas brasileiros encontra ecos na particularidade própria de Lígia, que registra o que está ao seu redor, “acho que as tirinhas falam muito de mim e do meu universo”.


“Nesse momento, precisamos de novas estratégias de comunicação para que o mundo fique um pouco melhor. Acho que o quadrinho é uma boa via.”, define sobre a qualidade objetiva dos quadrinhos nas críticas políticas, tão presentes nos jornais com as tirinhas. Quando questionada sobre o lugar dos quadrinhos dentro da cultura, Lígia assinala a desvalorização, ainda que o gênero seja típico dentro dos meios de comunicação diários, com a falta de políticas culturais e institucionais voltadas para o fomento da produção e leitura dos quadrinhos. Enxergar o universo contemporâneo pelas tiras de Lígia Zilbersztejn é uma experiência que funde reflexões existenciais e políticas a traços de aparência incompleta e tons pastéis. Lígia expande o sentido das palavras e dos objetos, “ver a vida com mais

dúvida do que com certeza”. O trabalho da artista pode ser conferido pelo Instagram, rede social que a quadrinista usa para expandir a visibilidade, @ligiazilbersztejn.



(Imagem/ reprodução: acervo virtual da quadrinista).

Frentes Versos: Os quadrinhos nos colocam numa zona entre a linguagem verbal e não verbal. No seu trabalho, percebi um destaque forte para o texto, como você pensa essas palavras?


Lígia Zilbersztejn: Eu acho que o quadrinho surgiu como uma possibilidade para mim justamente porque ele é uma interlocução entre a palavra e a imagem. Sou formada em arquitetura e muitas vezes durante a faculdade precisava dar respostas aos problemas com desenho. Mas depois de um tempo, eu fui sentindo a necessidade de tentar exercitar mais a escrita. Tento cada vez mais prestar atenção no que escrevo. Comecei a pensar nela [escrita] também como um desenho, como um jeito de pensar, de alargar os sentidos. Eu gosto das palavras porque elas são ambíguas. Elas parecem ser precisas, mas elas podem expandir muito, são muito maleáveis. Eu acho isso incrível, porque não é óbvio. Pelo menos para mim, elas aparentam ser mais neutras do que o desenho, mas não são.


FV: Quais são suas referências?


Lígia: Pra ser bem sincera, em relação às referências, tenho poucas de quadrinhos. Acho que ainda mais falando da escrita, as referências são muito mais emprestadas da literatura. Quem eu acho que articula muito bem a palavra e a imagem é o Millôr. Acho que sou mais leitora das tirinhas do que das histórias em quadrinhos longas. E gosto do Millôr por ele é bem direto. A Laerte também. Ela é sempre muito precisa. Uma cartunista que tenho visto muito é a Liana Finck, acho potente o poder de síntese dela. Também gosto muito do desenho e da escrita do Lourenço Mutarelli. Fico um pouco hipnotizada pelos desenhos dele e acho a escrita dele muito sensível.


FV: E as referências literárias?


Lígia: Da literatura, acho que um livro que li mais recentemente e que expandiu bastante minhas ideias é um livro do Gonçalo M. Tavares, Torcicologista excelência. Rendeu várias ideias de quadrinho. São diálogos geniais, parecem desenhados. Tem muito isso de alargar o sentido das palavras, das coisas... Um jeito bonito de pensar. Gosto muito também do Gabriel García Marquez, dos contos do Cortazar e Virginia Woolf...


FV: Muitas tiras têm um tom existencial, reflexões sobre vida e cotidiano, da onde vêm essas ideias?


Lígia: Acho que meu trabalho fala muito das coisas que estão ao meu redor, sobre as ideias que estão na minha cabeça, sobre as coisas que eu leio e as conversas que eu tenho. Acho que que as tirinhas falam muito de mim e do meu universo. Mas de algum jeito eu tento tornar essa experiência um pouco menos solitária e dura. Muitas vezes eu começo pelos objetos, palavras, ou situações que vejo e que me despertam algum tipo de curiosidade. Procuro sempre curiosidades na Internet (sou fã da superinteressante), procuro a etimologia das palavras, leio algumas mitologias e contos.... Tenho um caderno em casa para anotar todas as situações possíveis que possam um dia virar alguma tirinha. Porque senão eu esqueço. Mas eu pego esses objetos e me fantasio deles, tento disfarçar que não sou eu. Acho que no começo, como escrevia todos os quadrinhos em primeira pessoa, essa referência era mais explícita. Sempre vinham me perguntar se eu estava bem. E eu sempre me desenhava, era inevitável essa associação para quem me conhecia minimamente. Hoje em dia prefiro ser mais o outro. Na verdade, tem vezes que até guardo alguns quadrinhos para não me expor tanto.


FV: Durante o isolamento social, você postou muitos quadrinhos sobre a situação caótica do mundo. Como você vê o lugar da política dentro dos quadrinhos?


A quadrinista, Lígia Zilbersztejn.

Lígia: Eu acho que o quadrinho tem como maior qualidade uma objetividade e clareza nas ideias que ele transmite. Claro que isso não deixa ele menos ambíguo, irônico e sarcástico. Acho que isso está ligado com a escrita estar junto com desenho. A gente consegue avaliar a importância política deles vendo as tirinhas sempre presentes nos jornais. O quadrinho é acessível, é rápido e gostoso de ler, é muito comunicativo. Acho que a tirinha, ainda mais objetiva, consegue com muito pouco transmitir um recado, dar uma opinião. Uma resposta com poucas curvas. Eu sempre opto por não fazer associações tão diretas, mas acho que é essencial se posicionar politicamente nos quadrinhos. Nesse momento, precisamos de novas estratégias de comunicação para que o mundo fique um pouco melhor. Acho que o quadrinho é uma boa via.


FV: Ainda falando sobre tirinhas, como você enxerga o lugar dos quadrinhos dentro da cultura?


Lígia: Acho a relação entre quadrinho e cultura um pouco complicada. Por um lado, os quadrinhos estão presentes nos meios de comunicação, estão aí no jornal todo dia. Acho que ele é mais comunicativo e acessível ao público. Mas, em relação aos outros espectros da cultura vejo uma desvalorização. Vejo poucas editoras publicando, pouco editais de incentivo à produção de quadrinhos. Nesses editais lançados para a pandemia, não há menção deles. Acho sintomático, parece que ainda temos dificuldade de ver os quadrinhos e enquadrá-los em alguma categoria de arte. É curioso também que no Brasil não temos muitos museus que abrigam esse tipo de acervo, embora existam tantos quadrinistas talentosos aqui. Sendo honesta, eu sei que o IMS fez exposições do Millôr e J. Carlos que são acervo deles e o Itaú Cultural e o SESC também fizeram algumas exposições de quadrinistas. Mas acho muito pouco. É muito legal poder ver os originais, sinto falta de ver mais isso por aí. O quadrinho é muito potente enquanto publicação no circuito independente, mas sinto falta de políticas institucionais e culturais para ele.


FV: Lígia, você tem um estilo gráfico muito bem definido. Você pode contar um pouco sobre o processos dos desenhos? Como é escolhido o traço, as cores – senti uma presença forte de tons pastéis no Instagram - e como elas combinam com o texto?


Lígia: Isso é um baita elogio para mim. Não vejo tanto uma coerência nos meus desenhos. Mas fico feliz que alguém veja meu trabalho assim. Sinceramente, na maioria das vezes escolho fazer o desenho pela minha possibilidade de tempo e pelo que o que estou com vontade de usar. Outras vezes, o tema do quadrinho pede algum tipo de material ou técnica. O desenho de linha é um pouco mais seguro para mim. É um tipo de desenho que faço sem pensar, que usei muitas vezes na faculdade e na vida. Ele tem uma aparência de não acabado, de incompleto. Já na guache e na acrílica tenho mais dificuldade técnica. Estou experimentando e ainda crio muitos empecilhos na hora de digitalizar. Mas gosto de como as coisas ficam mais chapadas e toscas. Os desenhos ficam com menos detalhes do que o desenho em linha.

(Imagem/ reprodução: acervo virtual da quadrinista).

FV: Como é sua relação entre a técnica e o conteúdo?


Lígia: Em alguns casos, a solução técnica é fundamental para falar do conteúdo. Um exemplo disso, é o quadrinho da piscina. O quadrinho fala sobre uma forma que parece plana, mas que no fundo é profunda. Estou falando da piscina, estou falando de mim, mas também estou falando da minha relação com desenho e das dificuldades que encontro com ele. Esse desenho tinha que ser na guache, por exemplo.


FV: Você posta bastante no Instagram, qual sua análise sobre as redes sociais para difusão artística e contato com o público?


Lígia: Eu acho muito complexo. No início, fui muito resistente a fazer um Instagram. Faço tirinha acho que desde 2016, mas isso era algo que eu gostava de fazer pra mim, para mostrar pros meus amigos quando postava eles no Facebook. Depois de muita insistência e resistência, fiz um Instagram no final do ano retrasado. E aí fui percebendo como o Instagram era uma ferramenta importante para divulgar, para conhecer novas pessoas e ver o trabalho dos outros. Gosto também dele porque muita gente que não conheço vem falar comigo pra falar que gosta do trabalho ou para dar alguma sugestão. Vira um incentivo e um trabalho menos solitário.


FV: Qual é o retorno que o Instagram te traz?


Lígia: Aos poucos estão surgindo mais oportunidades, mas uso a rede justamente para que o trabalho vá ganhando mais visibilidade e autonomia. Mas o retorno é muito lento. Ele é bom porque eu me forço a produzir constantemente, mas ao mesmo tempo estou fazendo um trabalho de graça para uma rede social que não me dá tanto retorno e que é um pouco perversa. É complexo. Mas meu maior desejo é expandir a circulação para os outros meios: livros, revistas, jornais... E também criar novas parcerias. O Instagram é mais um meio do que um fim. Serve para aumentar uma rede mesmo.

(Imagem/ reprodução: acervo virtual da quadrinista).

FV: Como tem sido o isolamento para você na questão criativa?


Lígia: Para produzir, sempre senti a necessidade de estar isolada. Sempre precisei estar muito sozinha, no meu quarto e na minha mesa para produzir meus quadrinhos. Preciso de um silêncio, de um momento meu. Por outro lado, acho que estar isolada acabou virando um tema também. O momento de produção era solitário, mas agora a vida é também. No começo minha produção foi grande, as ideias vinham sem parar. Fiquei animada com a ideia que tinha mais tempo em casa para produzir.


FV: Qual tem sido o lugar do isolamento e da epidemia dentro da sua produção?


Lígia: Agora cansei de falar sobre isolamento, solidão, coronavírus e da necropolítica do nosso governo. Acho que o tema se esgotou um pouco. Ainda estou tentando entender sobre o que falar nesse momento estranho. Claro, não preciso falar o tempo todo de solidão, de isolamento e de necropolítica. Mas meu repertório diminuiu bastante, fico muito centrada nessas questões, infelizmente.


FV: Qual mensagem você quer passar hoje com o seu trabalho?


Lígia: Difícil essa pergunta. Eu acho que não existe um atrás dos quadrinhos, uma intenção tão clara e desenhada. Acho que é algo que eu gosto de fazer e ponto. Mas acho que eu tento expandir o significado dos objetos, das palavras. Ver a vida com mais dúvida do que com certeza. Colocar outras maneiras de ver o que está na nossa volta. Brincar um pouco com a linguagem e com as coisas no mundo.

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