• Matheus Lopes Quirino

[Quarentena] Morreu o primeiro homem de saudade no mundo

\\ ENTREVERES

talvez os sintomas se manifestem de formas diferentes em cada um. É algo específico, mas tão específico quanto particular

por Matheus Lopes Quirino



Ontem pela manhã levei um susto. Ao abrir o jornal de domingo, li em letras garrafais a manchete, com o subtítulo ‘urgente’: “Morre de saudade o primeiro homem no mundo”. Pensei que era alguma brincadeira com Adão, o moço que era parceiro da Eva no livro de Gênesis, mas não, tampouco era anúncio publicitário. Larguei o café e fui ler a matéria em destaque. Uma página vazia, em homenagem ao luto, com uma nota de rodapé que faço questão de reescrever aqui:


        SÃO PAULO – Morreu ontem, aos 20, o escritor Affonso Galileu Duprat e Silva, vítima fulminante da saudade. Ele cumpria isolamento social recomendado pela Organização Mundial da Saúde, contrariando os desvarios do excelentíssimo sr. Presidente da República. Segundo familiares, ele morreu enquanto escrevia o diário antes de dormir, caindo no chão. Laudos apontam que não houve perda de sangue, nem escoriações; Affonso não tinha nenhuma doença, era magro e se alimentava bem. Estão descartados hipotermia e COVID—19.



A notícia continuou num obituário. Me peguei pensando “Vinte anos, como alguém de vinte anos morre de saudade, como alguém com esta idade já sabe o que é saudade?”. Mas ao mesmo tempo me confrontei: “É claro que ele sabia, era escritor!”. Estava escrevendo em seu diário, provavelmente se sentiu mal e caiu já morto de saudade. Provavelmente aquelas palavras soltas na última e tortuosa linha o sufocaram. Talvez ele não conseguiu dizer aquilo que há muito estava preso, mas soltou ali prestes a decretar, de caneta preta bico fino, seu derradeiro fim.


Representação. O enterro do conde de Orgaz, datado de 1586. Iglesia de Santo Tomé, Espanha. El Greco.

Imaginem a reação da família. O choque, o laudo médico descartando absolutamente tudo. E se estava com a família, só poderia estar com saudade de alguém que, com ele, compartilhava um afeto feroz. E não é assim que as pessoas adoecem de saudade? Dão desculpas esfarrapadas falando de frio, gripe, baixa imunidade, talvez seja a tristeza deixada no buraco do peito onde abre a saudade. Ela corrói e se manifesta silenciosamente.


E a cura é simples, mata-se a saudade com o afago verdadeiro, com o toque ligeiro no pescoço, o ressoar das palavras, carregadas de saudade. Saudade mata saudade. É algo meio paradoxal. É só uma questão de tempo para não sucumbir.


Como ninguém ainda, nessa vastidão de mundo, morreu de saudade? E os poetas, os maridos e esposas separados pelas guerras mundiais? E, claro, esses foram fuzilados, elas podem ter achado um outro alguém. As pestes que se alastram no mundo com certeza levaram muitos dos românticos, mas morrer de saudade, segundo o jornal, era só um, e o nome dele era Affonso Galileu Duprat e Silva.


Curiosíssimo, ligo para um amigo no jornal que me confirma. “É morte morrida de saudade, você deve saber muito melhor do que eu, já que esteve à beira de tantas vezes”. Uma luz acende, fraca, mas talvez os sintomas se manifestem de formas diferentes em cada um. É algo específico, mas tão específico quanto particular.


A saudade vem para lembrar o coração caduco de bater. Ele se acelera e dá ordem para os pulmões estarem a todo vapor. Os olhos se enchem de água e, aos poucos, a saudade se transforma no seu próprio antídoto.


Releio a pequena notícia, não sou de fazer reza, acredito no amor, talvez seja por isso que me coloquei de joelhos. Penso em todas as vezes que senti saudade. A gente engole para não se afogar, fica firme, a ponte de andar em círculos, o impulso reconduz ao leito antes de se defenestrar. Morremos e nascemos depois da saudade. Nunca somos os mesmos depois que ela vem. A saudade é uma doença crônica, como tantas outras.


Tratável, ela se alonga por meses, anos, mas diminui até passar quase imperceptível. Ela se modifica, vivemos bem com isso, rimos até pois a esquecemos. Mas em algum momento ela se manifesta, geralmente quando se está em um grande amor e as forças da natureza separam os amentes à contrarregra, nesse momento é quando a saudade ressurge. Ela vem furiosa e só vai embora quando a matamos, antes que ela nos mate primeiro.

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