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Relatos de quarentena - Giovani Lucarelli

\\ ESPECIAIS

E todo é dia. Eu, terço em mãos, três quartos, uma luz, uma foto de três por quarto. O Pai, O Filho e O Espírito da Pomba Maldita.

Por Redação Frentes Versos

"Bridge over the Arnor" (1931), de Elizabeth V. Blackadder.

Ninguém em casa


Quem fui eu amanhã? Quem sou eu ontem? Quem serei ele hoje? Os tempos e os espaços parecem uma irrelevância, um pequeno choro miúdo de pássaros do-lá-fora, frente ao que habita a alma esburacada e os sentidos embasados, rotos, todos, viciados, tomados pela promessa do ontem e pela possibilidade do antes.


Mas não tenho fé não. Mas o que eu tenho é um relicário, daqueles que a gente bota no pescoço e passa a vida inteira admirando o passado. Na foto da criança de dente torto, em retrato mal cortado, do fotógrafo safado que saia com mãos bobas com a mãe de saias — e papai nunca soube disso. É no pequeno retrato que guardo os anos passados de esperanças esquecidas, cuja dor é um pouco maior do que o esquecimento que povoa a maturidade e preenche o vazio de ser grande.


E todo é dia. Eu, terço em mãos, três quartos, uma luz, uma foto de três por quarto. O Pai, O Filho e O Espírito da Pomba Maldita. Nós quatro acampando sob as estrelas e fritando marshmellows, roubando cachaça na dispensa do pai e namorando escondido nas janelas de ruas de paralelepípedo — anseio —: por vozes na casa, barulhos da cozinha, bagunça na cama e caos nos pensamentos: de cachaça barata, de ansiedade inexata, de comida estragada do beco da esquina.


Mas remedeio. De pés descalços na lama do pátio em ruínas, me aventuro na ferrugem das argolas de ferro do balanço bambo. Já no chão, aperto o penduricalho entre os dedos e o boto contra o peito, enquanto as lágrimas escorrem pelos olhos vidrados no entardecer sereno do outono. “Pelo menos, pôde sorrir”, reconheço.


De volta ao lar, calço botas couro trinta e cinco, preencho o cachimbo de papai com cinzas da madrugada, boto a chaleira no fogo e, me coroo com o chapéu de cangaceiro porreta que esquenta o sangue no escuro infinito. Verto meia cinco um e, só de cuecas —afinal, faz frio em São Paulo —, me sento na poltrona estacionada em cento em vinte três canais a cores monocromáticas: mais uma noite de insônia familiar e lágrimas de travesseiro com clássicos do Velho-oeste.


Ninguém em casa.


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