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Relatos de quarentena - João Antônio

\\ ESPECIAIS

“Porra Zé, para de bater à máquina uma hora dessas, num’ ‘tá na hora de ‘cê pregar os olhos e te enrolar no lençol?”

Por Redação Frentes Versos


"The Artist in his Studio" (1626), de Rembrandt.


Quem dá luz a cego é bengala branca


Mas que inferno! ‘Cabou o café de novo? Toda vez que fazem a rapa aqui em casa, quem sobra pra pagar o pato, morder a verdinha, entregar o ganso, sou eu. Pois sou! Cada vez que aquele lustradinho do Boner vem pra tevê ler te-pê e inventar um monte de num’ sei o quê; Pois eu sou! a poloquear meia dúzia de charadas chiques em prosa difícil pra besta bater palma, panela e na minha cara quando vem a cheirosa me pedir adiantamento pelo telefone: “Alô! Pois sou eu! ‘Cê acredita? Cada inferno que a gente se mete quando fica trancando em casa, vendo pornô barato e telejornal diário — ai, ai, ai minha filha ‘cê me para de ficar usando o 3G que papai tem prioridades em casa, viu? Não é por que mamãe trabalha na enfermaria do hospital que o servicinho aqui em casa não diminuiu, viu?”

Duas e trinta e seis da manhã, e elas a mil: “Porra Zé, para de bater à máquina uma hora dessas, num’ ‘tá na hora de ‘cê pregar os olhos e te enrolar no lençol?” Gente chué num tem outra não, não senhor: cê cria as pestes, dá farinha, arroz, e laptop e tem que ouvir coisa dessas a hora daquela; pai solteiro preso em casa é pior que presídio público. Editor no cangote, revisor na cola, jurídico já pra suspender contrato por falta de promoção do material: “vem ou não vem, José”; “Meu considerado”, falo com gentileza com o doutô que nunca bateu uma laje na vida, “com quatro em casa, esse livro é última coisa dos meus pesadelos. Já pensou o sinhô, barrigudo, velho, carrancudo tendo que trabaia quinze horas e meia por dia pra’ menina ficar vendo vídeo de coreano gay? Ô companheiro, dá uma relaxada, quem dá luz a cego é bengala branca”.


Oxalá, Exu, Saravá, me faz uma mandiga de livramento desses textos. Artigo do Paraná, notas na Amazônia, pedidos do Anastácio, cartas de Paranaguá — ahh, Paranaguá. Olheiras roxas, mãos trementes, músculos atrofiados, intestinos à amostra e um futuro nas mãos dum bicheiro que bate ponto na editora: puta que pariu. Dessa vez fui longe. Ganhei na loteria, quase. No andejo de tanto zé-ninguém (eu próprio), de tanto pé rapado pra confiar futuro, fui me (re)meter com o ‘homi’ que apresentou esposa e fecundou problemas. Bem, que eu não tenho vocação a nada — fora birita e mastigar capim com bigorna —, não tenho, mas olha: desde que me mudei pra deixo da escada e comecei a dieta de miojo com sarsicha não poderia estar melhor: os vencimentos não fecham, as meninas não choram, a internet não para, o sossego não vem e, como costume, o telefone não toca —Arlindo, cê me paga safado.


Se eu fô dá uma dica pra essa primeira quarenta — porque se seguir o Palácio quer, só príncipe e amigo do rei vão poder andar na rua —, ficamos nos crássicos de sempre: beba muita água, se exercite, não veja Netflix, não beba todo dia, não veja televisão ou qualquer tipo de mídia, se possível fique em casa e ligue pros familiares, e, de preferência, não beba álcool em gel nem use a máscara de cara como tapa sexo.


Um grande web-beijo pros cês,

João Antônio.


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