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Relatos de quarentena - Ricardo Reis

\\ ESPECIAIS

Do lado de fora de minha janela habita o mundo, ou a praça da República, e nela vejo pouco do movimento habitual, a não ser pelas almas

Por Redação Frentes Versos


"Paisagem" (1986), de Iza Costa.

Antes de viver, após a minha morte, uma pandemia, vivi outra, que não sei exatamente onde está, não sei se está no meu retorno a Portugal, em algo que se alastrava na alma dos homens, corrompidos por um tempo duro e pelas botas sujas do fascismo, se estava no vapor que deixava um porto brasileiro com destino a Lisboa, num menino que caía doente durante a viagem, e que morria, com seu rosto febril e vermelho, no quarto da família. Carreguei comigo esta memória discretamente, e agora vivo intensamente as minhas reflexões, trancado em quarto de hotel, ou as viveria. Do lado de fora de minha janela habita o mundo, ou a praça da República, e nela vejo pouco do movimento habitual, a não ser pelas almas que estão perdidas. Ainda estão todos presos à vida, por conta disso a segurança mantém-se, na distância às ruas, e não se enxergam mais as mesmas cordialidades, e as mesmas trocas que partem de lugar nenhum e a ele chegam. Deixo de ver aqueles que acostumei a habitarem a minha tarde e a minha noite, em meu quarto novo próximo à Praça da República, e me sinto só. Não me encontro no meio da peste, e sem me sentir ameaçado me sinto só, distante dos outros homens, e dessa vez como se eu não pudesse conhecê-los. Sinto-me separado, compreendo que toda a cidade está separada. Não sei onde se encontrarão encontros, agora ou depois que agora passar, que homens ainda existirão, como existirão, e se poderei encontrá-los, ou eles se encontrarão, e talvez cumprimentem-se, e passando o cumprimento talvez seja possível começar um dia, e talvez começado, a partir desse dia o homem que habita em cima de mim volte a se preocupar com vendas de desodorantes, condicionadores sabonetes e outros bens, e a mulher volte a atravessar a praça com um passo rápido, sob o meio-dia, buscando algo que, imagino, ela encontra depois de desaparecer na esquina seguinte, e talvez voltem a se preocupar com trocas, escambos, erros de cálculo, salário dos funcionários e perda de mercadorias. Abro a janela do meu quarto. Acostumei-me a um cotidiano luminoso silencioso e azul.


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