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Relatos de quarentena - Vladimir e Estragon

\\ ESPECIAIS

Nenhuma palavra sobrou para ser dita, então ficamos com a boca fechada. Sinto que dormimos comemos e andamos bem.

Por Redação Frentes Versos


"Caridad de San Nicolás de Bari", de Girolamo Macchietti.

Ficamos desolados. A hora ainda não tinha chegado. Nada a fazer. A mesma súplica vaga, se repetindo, era o que ele tinha nos mandado e nós obedecemos. Toda aquela rua era uma grande súplica vaga − era? você discorda? − era, enfim. Um grande lamento onde não estamos e para onde voltaremos amanhã? Não acha? Não teve discordância. O que quer que aconteceu, se tiver acontecido, foi a melhor coisa que podia nos acontecer, não temos mais discordância. Nada a fazer


Não pensamos em muitas coisas, nem nas mesmas. As coisas estiveram basicamente as mesmas, a menos que me escape agora alguma diferença. Vai tudo bem, tirando pela falta de histórias novas. Precisamos de pessoas para poder contar as histórias, e quem sabe quando elas a ouvirem ela vire uma nova. Por aqui vamos só reciclando as velhas. Nada a fazer.


Muitas coisas fizemos. Aprendemos mais de linguagem com o cachorro que veio nos visitar que com os vultos perdidos que apareciam às vezes.  Numa pedra de sabão esculpimos estátuas melhores que aquelas ao nosso lado. As perdi quando precisei tomar banho. Abri três vezes a porta da casa, mas não tinha ninguém querendo entrar. Um indigente quis roubar a comida podre que tínhamos guardada, mas fomos mais espertos e pegamos de volta. Nada a fazer.


Nenhuma palavra sobrou para ser dita, então ficamos com a boca fechada. Sinto que dormimos comemos e andamos bem. Somos as únicas pessoas que fazem sentido aqui.


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