• Matheus Lopes Quirino

[Resenha] A Ilha de Arturo forja infância solitária de menino em território sem mulheres

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Romance de formação referência para Elena Ferrante, Elsa Morante tem sua obra-prima,'A Ilha de Arturo' - memórias de um garoto republicada no Brasil e nos E.U.A depois de décadas de esquecimento.


Por Matheus Lopes Quirino

Na foto, A escritora Elsa Morante (reprodução)



Incompreendido em sua geração, o escritor John Doone afirmou que “nenhum homem é uma ilha” (excerto tirado de um de seus célebres poemas) entretanto, não é assim que o jovem Arturo Gerace se sente. Talvez Arturo, do alto de seus quatorze anos, partilhe com o poeta somente a mesma incompreensão, motivo que o faz narrar com grandeza pueril as histórias passadas na sua ilha de Prócida, no sul da Itália.


Na verdade, o menino está ilhado em si mesmo, no mundo que construiu imaginativamente através da apreciação de fragmentos deixados pelos moradores do castelo em que vive sonhando com o futuro. Com isso, Elsa Morante emprega na personagem uma característica primordial do bildungsroman, a figura que se forma através das muitas viagens que realiza em torno de si e pelo mundo, como Wilhelm Meister, de Goethe, a Holden Caulfield, de Salinger.


Arturo passa a maior parte do dia lendo livros de histórias do mundo antigo, bem como contos de cavalaria e outras aventuras. Sonha em se tornar um explorador, muito inspirado no pai Wilhelm, que vive ausente descobrindo os prazeres do mundo. É com essa idealização da errância que Arturo galopa da infância à juventude, venerando Wilhelm e sonhando em desbravar outros continentes. Em A Ilha de Arturo, romance vencedor do Strega da escritora italiana Elsa Morante, o menino Arturo conhece a si mesmo ao mesmo tempo em que se aventura pelas praias, grutas, bares e cafés do porto de Prócida.


Uma expedição em busca de uma identidade, Arturo vive em um castelo arruinado, uma construção que é guardada pelas lendas do espírito de Romeo, o Amalfitano, antigo dono da propriedade, um cidadão notável na comuna, tanto por suas festas, quanto por seu aspecto hostil. Entretanto, essa hostilidade era direcionada a mulheres. Misógino e solitário, já na velhice avançada ele encontra em Wilhelm um porto-seguro, e entre os dois floresce uma relação de cumplicidade e interdependência.


Com a morte do Amalfitano, a devoção de Wilhelm lhe rende a Casa del Guaglioni. Lá, o retrato do Amalfitano sustentava uma maldição de quinhentos anos, que naquele castelo nenhuma mulher poderia habitar. Tendo ciência disso, o jovem Arturo remói o vaticínio de Romeo e o coração aperta quando lhe surgem pensamentos de sua mãe, morta durante o parto. Dela, o menino guarda um amor profundo e delicado, talvez a única figura a cativar a criança e, ao mesmo tempo, acalentar seu solitário coração.


Nos primeiros anos da infância, Arturo foi criado por seu babá Silvestro, um homem rústico e nada maternal. Ele guiou o menino em sua fase inicial da infância e, com exceção das passagens aleatórias do pai pela Ilha, Arturo cresceu sozinho, criou-se como um selvagem se inspirando em Wilhelm (as maneiras de falar, se portar, pensar), sonhando em se tornar uma grande figura, como os reis do Oriente, como lia nos livros deixados por um estudante que, há anos, hospedou-se na Casa del Guaglione.


Na companhia da cadela Immacolatella, Arturo não se sente tão só, entretanto, isolado do resto da ilha, ele não vê com bons olhos os procidanos, execra-os como o pai, mantendo-se sozinho por anos. Ao longo da história, o garoto vai aprendendo com a ausência, vai amadurecendo e o tempo passa nessa lânguida solidão, entrecortada por pequenas aventuras, das quais, Elsa Morante carrega singelos momentos de pai e filho à beira-mar, como quando o relógio de Wilhelm sai do pulso e Arturo, com espírito errante, põe- se a nadar entre as pedras da praia, liquidando todo medo em nome de grandes sonhos e da presença de seu pai.


Chamado de mourinho pelo loiro Wilhelm, o menino deseja partir com o pai de Prócida rumo ao desconhecido que tanto o atrai. Logo ele, impetuoso infante, acaba se deparando com outro desconhecido, tão íntimo e próximo que será sua madrasta, a católica Nunziata, que enche seu quarto de imagens de as madonas que devota, prostrando-se ao simulacro da família cuja mãe Violante tanto sonhou para a garota. Aos poucos, essa figura feminina que adentra o templo do Amalfitano parece vencer a maldição e, não muito depois, Arturo ganha um irmãozinho.


Elsa Morante faz de Arturo seu pequeno édipo, colocando-o na fronteira do que sente pela madrasta, cujas impressões ao longo do livro vão vicejando. Afinal, embora sejam personagens maduras, ainda são teens, o menino está com quatorze e Nunziata com dezesseis. Arturo, ao ver a mão aos beijos com o filho se contorce de ciúme, une os sentimentos de falta e saudade de sua amada mãe e, ao mesmo tempo, o desejo de ser beijado. A ilha se torna uma metáfora de si mesmo, Arturo se vê encastelado por suas próprias angústias.


“Não sabia que era possível beijar-se tanto neste mundo: e pensar que eu nunca tinha dado nem recebido beijos! Olhava aqueles dois que se beijavam como se olharia, de um barco solitário no mar, uma terra inalcançável”, escreve Morante. E, de repente, esse beijo move Arturo rumo ao seu primeiro amor, enquanto Wilhelm, cujo retrato do Amalfitano lhe enche de devaneios, engalfinha-se com Stella, prisioneiro de Prócida, primeira personagem realmente capaz de possuir a dedicação do loiro.


Errante. Arturo é um autodidata que sonha em peregrinar mundo afora como o pai

O jovem ator Vanni De Maigret como Arturo, no filme homônimo de Dominico Damiani (1962)


O escritor Ítalo Calvino conferiu à Elsa Morante um brio especial, classificando a narrativa de Morante como despertadora de simpatia e admiração pelo gênero humano. A Ilha de Arturo, já em 1957, foi bem recebido pela crítica italiana, torando-se um clássico romance de formação, ainda hoje lembrado no país.


Morante, que começou a carreira na literatura ainda menina, publicando histórias em suplementos literários direcionados ao público infantil, nos grandes jornais, também desenhava e chegou até atuar. Casou-se com o escritor Alberto Moravia, com quem viveu tórrida paixão e grandes crises, sempre ladeada por personagens especiais da Itália, naqueles anos como Pasolini, Visconti, Siciliano e Natalia Ginzburg. Morante, autora de quatorze livros, além do Strega, recebeu o prêmio Médicis estrangeiro, um ano antes de morrer.


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TÍTULO: A ILHA DE ARTURO

AUTOR: ELSA MORANTE (TRAD. ROBERTA BARNI)

EDITORA: CARAMBAIA

ANO: 2019


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