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[Resenha] Em 'Essa gente' Chico Buarque volta a traçar panorama da sociedade carioca.

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Chico Buarque cria um projeto ambicioso de articulação entre o retrato de um indivíduo e a elaboração de um panorama social – um às claras e o outro nas entrelinhas.

Por Laura Pilan, colaboração para Frentes Versos

Chico Buarque de Hollanda- Foto: Agência O Globo


O romance “Essa gente”, escrito por Chico Buarque, ensina ao público como deve ser lido. Desenvolve-se como um organismo autônomo – um quadro vivo, bastante complexo e controverso. A primeira lição é também seu maior desafio formal: a narrativa é composta pelas entradas datadas de um diário, correspondências e mensagens trocadas, documentos e diversos outros registros humanos. Isso revela, acima de tudo, qual será a distância estabelecida entre o leitor e os personagens. A resposta é muito simples: o espaço será mínimo.


A proximidade extrema com o protagonista – Manuel Duarte – mostra até mesmo aquilo que não gostaríamos de ver: a faceta banal, um pouco patética e pervertida de um escritor em decadência. Sua jornada para criar um livro ainda melhor do que o best-seller “O Eunuco do Paço Real” é o pretexto infame que dá origem à narrativa que será desenvolvida nas páginas subsequentes.


Através da figura tragicômica de Duarte, Chico Buarque cria um projeto ambicioso de articulação entre o retrato de um indivíduo e a elaboração de um panorama social – um às claras e o outro nas entrelinhas. O autor opta por não contar e sim mostrar: os personagens agem em suas vidas aparentemente vulgares e, ao leitor, é incumbida a tarefa de capturar o que essas ações significam em um contexto muito mais amplo – político e social. O protagonista perambula entre realidades díspares: frequenta as regiões mais ricas do Rio de Janeiro – onde encontra solidão, egoísmo e hipocrisia – e conhece os lugares menos abastados e consumidos por pobreza e sofrimento. Esses polos, aparentemente opostos, se chocam na violência e no sangue que respinga na calçada.


Duarte é uma testemunha do espetáculo protagonizado pela burguesia carioca e pela polícia. Ele assiste o desenrolar dos acontecimentos na sacada de seu prédio, na areia da praia ou nas ruas do morro, mas nunca atua no palco principal – sua presença está nos bastidores. Ele vê essa gente de perto, conhece seus comportamentos, usa dessas pessoas quando necessário.


A crítica é emitida de maneira sutil e poderia passar despercebida entre os inúmeros fatos absurdos que são contados. Contudo, é o caráter ordinário da vida de Duarte que trata de colocá-la em evidência. A banalidade dá ênfase ao que há de mais bizarro escondido nas vielas e nos apartamentos luxuosos do Leblon.


É provável que as personagens mais interessantes do romance sejam as mulheres que passam pela vida do escritor. Maria Clara é uma revisora e tradutora que, mesmo depois do divórcio, age diretamente sobre a produção literária do protagonista. A intelectual equilibra o trabalho com a criação do filho, uma vez que Duarte não desempenhou efetivamente suas funções como pai. Ocupa-se das obras de Shakespeare e, tal qual algumas personalidades criadas pelo bardo, é levada à insanidade pela realidade cruel que a cerca. O que há de mais irônico em Maria Clara é que sua condição financeira privilegiada permite sua fuga para um país mais receptivo à esquerda política, mas nem o dinheiro é capaz de impedir os efeitos da realidade social em sua mente.


Rosane, por sua vez, é a segunda esposa de Duarte. Caracterizada a partir de traços peculiares, é uma arquiteta bem-sucedida e liberta sexualmente que se envolve com homens cuja fortuna advém de ofícios moralmente duvidosos. Sua fachada confiante apresenta fissuras provocadas por inseguranças latentes – desde o ciúme e a rivalidade estabelecida com um antigo amor de Duarte até o desejo pela maternidade nunca alcançado.


A última delas é Rebekka, uma holandesa que mora no Vidigal e que surgiu na vida do protagonista ao caso, por meio do marido – o salva-vidas Agenor. É seu interesse por literatura que a coloca no caminho de Duarte e que determinará, fatidicamente, o destino do protagonista de “Essa gente”.


Além dos fragmentos de memórias, vidas e perspectivas, o livro nos oferece reflexões interessantes sobre sua própria criação. Acompanhar o artista é conhecer não só as glórias – que, aqui, são poucas –, mas também as dificuldades do processo criativo e da obtenção de reconhecimento por seu trabalho. A escrita é mais complexa do que o simples ato da caneta no papel: não é só ofício, é também vaidade. O procedimento é, aqui, explorado honestamente como algo que vai além da inspiração das Musas – é necessariamente retirado da matéria da vida humana.


Por meio dos dilemas de Duarte, o autor esbarra em obstáculos relevantes para a produção literária contemporânea. Entre os impasses, está a árdua busca por uma nova forma de escrita que seja condizente ao momento histórico e social experienciado, uma vez que a literatura, enquanto organismo vivo, absorve e incorpora as crises de seu tempo. A concepção de autoria é um dos entraves que Chico Buarque opta por dissolver em seu texto, entrelaçando seu protagonista às inquietudes que poderiam ser um eco da voz do escritor de carne e osso.


É na miríade de impressões, formada por uma confusão de pessoas e uma pluralidade de vozes, que o leitor encontra um relato atual e afiado da sociedade brasileira. O desfecho muito pouco otimista de Duarte opera como um aviso ou um presságio. É nessa bifurcação – de caminhos estreitos e, até mesmo, tênues – que se esconde a solução ou a derradeira decadência.


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TÍTULO: Essa gente

AUTOR: Chico Buarque

EDITORA: Companhia das Letras

ANO: 2019

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