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[Resenha] Episódica, obra de Margaret Atwood consagrou-se em livro e série pop

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O conto de Aia apresenta de maneira muito evidente os empecilhos ocasionados por uma falta de assistência às necessidades de uma população, que fora violada e se tornou prisioneira.

Por Rafaela Mancini, Especial para Frente & Versos


Cena da série "the handmaid's tale", de Bruce Miller. (Foto: Hulu).

Em tempos de isolamento social, os aventureiros (também conhecidos como leitores de quarentena) que se depararem com O conto da Aia terão a possibilidade de mergulhar em um outro universo o qual também sofre com o confinamento. Mas é claro que este, outrora inspirador da série que eclodiu nas televisões, está dentro das medidas da ficção de um romance distópico.


A identificação com o cenário do livro, portanto, não é completa. A história de titulo original The handmaid’s tale, escrito pela canadense Margaret Atwood, passa em uma sociedade chamada de Gilead, ao norte dos Estados Unidos e próxima à fronteira com o Canadá, na qual um regime autoritário e fundamentado no fanatismo religioso faz com que os habitantes vivam dentro de um espaço delimitado e com um cercamento extremamente rígido. Contidos neste local, as personagens encaram a violência institucional, que estimula o sexismo e permite nos seus mecanismos o estupro e a exploração.


A narrativa contada em primeira pessoa carrega consigo, durante toda obra, um tom misterioso ao mesmo tempo que suspeito, a partir de uma linguagem tão surpreendente quanto seu enredo. A protagonista, cujo nome aparece como “Offred”, faz parte do estamento de “Aia” ou daquelas responsáveis por engravidar e “manter a ordem” da natalidade na comunidade. O seu relato é envolvente e conta parte de sua vivência no período de início deste regime ditatorial, misturada às experiências antes da consolidação deste.


O passado vai se revelando aos poucos, assim como as respostas aos questionamentos acerca da construção do governo vão se apresentando simultaneamente. Cada vez que os segredos da ordem superior são rompidos, o leitor fica mais instigado a descobrir os fundamentos da história, pois o sentimento de confusão despertado se torna motivo para continuar a leitura. Quem lê resiste junto, além de mergulhar em uma série de dúvidas e angústias que fazem parte do cotidiano da protagonista: O que aconteceu com aquele outro personagem? Como que o tempo presente chegou a este ponto? O que acontecerá no futuro, a quem se arriscar?


Através de uma linguagem detalhada e de uma descrição minuciosa, a lembrança aflora a partir de pequenas percepções da realidade, como a observação da cor de um tecido ou do sentir o cheiro de algum alimento. As recordações se fazem motoras da vida e se tornarão combativas à realidade cruel, serão as principais armas de sobrevivência, uma vez que toda a normalidade da vida antiga foi privada e substituída por um sistema drástico.


A fuga ao passado, ocorrente apenas na memória, é a única forma de se desvincular das violências propagadas pelo regime autoritário, controlador das esferas políticas que determinam quais são as ações e pensamentos aceitáveis na sociedade, e o que não está sujeito à penalidade do extermínio. Assim, o leitor transita entre o plano do antes e o do agora, sendo impressionado até o final da história com o cenário no qual Offered se encontra, um lugar sem espaço para o pensamento crítico do indivíduo e sem os direitos de liberdade de ir e vir, por exemplo.


O pressentimento de desconfiança desenvolvido ao longo das situações, traz uma reflexão profunda sobre este tipo de governo embasado no medo, no ódio e na matança. O autoritarismo e suas vertentes ficam explícitos nas suas formas mais cruas de violência e desumanização, além de surgirem diversos questionamento em relação à fragilidade das leis, das imposições de normas controladas coercitivamente e da falta de um diálogo em uma sociedade.


Aquele que entrar em contato com as problemáticas do livro, estará também descobrindo e compreendendo cada vez mais os problemas gerados pela banalidade do autoritarismo e como o sentimento autoritário se constrói ao longo do tempo. O conto de Aia apresenta de maneira muito evidente os empecilhos ocasionados por uma falta de assistência às necessidades de uma população, que fora violada e se tornou prisioneira. Serve de alerta para os tempos sombrios de hoje, mostrando os problemas e as fragilidades de um governo irresponsável, que apesar de cruel e perigoso, ainda é combatível.


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TÍTULO: O Conto da Aia

AUTOR: Margaret Atwood

EDITOR: Rocco

ANO: 2017

















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