• André Vieira

[Resenha] Inédito no Brasil, Domenico Starnone estreia com romance sobre cada falso familiar

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De prosa fluente e trama instigante, Laços convida o leitor a desnovelar o emaranhado de voltas, laçadas e nós que constituem o fio das relações humanas.


Por André Vieira


Mamãe, papai, irmãozinho e irmãzinha. Tradicional composição familiar italiana na década de 1970. Papai Aldo acabara de ser contratado por uma universidade como assistente de gramática grega, postulando um futuro sórdido como acadêmico. Mamãe Vanda e as crianças acabavam de passar as últimas férias nos campos, num sítio, e agora vivem radiantes e orgulhosas num pequeno apartamento alugado a muito custo e suor. E Lidia, jovem estudante universitária recém-ingressa no curso de Economia e Comércio, chacoalha as fracas estruturas de mármore arruinado e granito esgarçado daquele recinto feliz de pequeno burguês.


Papai conta à mamãe que ficou com a outra. Mamãe esbraveja contra o travesseiro macio e o marido sincero. Papai passa a frequentar a casa de Lidia: Lidia primaveril Lidia veranil, Lidia outonal, Lidia invernal. Mamãe vai frequentemente ao correio; revoa papéis, escreve tratados, come pouco, dorme muito, muito mal. Uma carta judicial chega à casa de Papai; as escassas reuniões em família rareiam; não se brinca mais de rouba monte na casa de mamãe, a televisão não permanecesse mais ligada; acaba o dinheiro do aluguel na casa da família. Um grito, um manifesto, um diálogo-monólogo-desabafo urge interruptamente pelos pequenos pulmões asmáticos de uma ― agora solteira ― Mamãe: “Me matei, Sei que devia escrever tentei me matar, mas não seria exato. Para todos os efeitos, estou morta”.


De prosa fluente e trama instigante, Laços convida o leitor a desnovelar o emaranhado de voltas, laçadas e nós que constituem o fio das relações humanas. Seja por meio da amizade felina num apartamento antigo, do aventura-se para além das instituições do casamento e da família, da cumplicidade e parceria de laços fraternos, seja através de objetos que por vezes achamos desinteressantes e triviais ― aqui representados em cartas grávidas, dicionários de latim e fotos instantâneas ―, o romance coloca em evidência o afrouxar e o apertar, criar e destruir, amarrar e desamarrar próprio dos laços sentimentais que constituímos durante nossas vidas e que nos conectam a um amalgamo de épocas, sentimentos e lembranças.


Mas o ritmo da narrativa é ditado pelo caos. Por nossas vontades egoístas, por nossas convicções finalistas, pelo terrível sentimento de culpa que corrói nossos sonhos, pela ganância de ser o protagonista da própria história, à revelia dos outros a nosso redor. É no eu meu dito por mim, que maridos fogem com a outra vinte anos mais nova. Esposas, do alto de seu orgulho de mulher humilhada e traída, recusam-se a aceitar, acolhedoras e jeitosas como antes, o marido de volta ao lar. E filhos, queridas visões aos nossos olhos, arquitetam golpes para se apossar das riquezas dos pais.


Alguns poderiam dizer que por sua temática principal, Laços poderia muito bem ser um ensaio sobre o traição e o engano ― pelos outros e pelo próprio ser. Julgando saber com certeza os passos do outros e nossos próprios e acreditando piamente, que algumas certezas nunca serão postas como dúvidas, nem que nossas dúvidas um dia serão certezas; mas no fim engamos a todos, a nossos queridos, a nossos amigos, a nossos nossos. No entanto, como bem coloca a tradutora da edição inglesa do livro, Jhumpa Lahiri, no prefácio da obra em português, “Laços é menos sobre a traição do que sobre a dor que volta à tona: apesar dos esforços diligentes para organizar experiências, emoções e memórias, elas não podem ser empacotadas, escondidas, reprimidas, arquivadas”.


Assim se engana o leitor que julga encontrar no livro uma leitura pesada e mórbida, ornada por questões filosóficas densas e condensadas. A despeito de seu temática adultera Laços consegue com engenhosidade, humor e leveza transformar uma discussão cerrada sobre arquétipos culturais, obrigações matrimoniais, socais e institucionais e laços afetivos em um romance ágil, de leitura fácil, sem reduzir a complexidade dos temas ali trabalhados. Para tal, o mestre napolitano, Domenico Starnone faz uso de conceitos-caixinhas, tal qual as caixas chinesas ― uma caixa dentro da outra ― ou as bonecas matrioscas, que em cada uma contém dentro si, fragmentos mais aprofundados das demais.


Dessa forma, Laços é uma história sobre traições e enganações, experiências e memórias e, sobretudo, sobre liberdade e felicidade a partir do movimento circular do apertar-e-afrouxar que desempenhamos ao longo de nossas vidas. Em tradução transparente de Maurício Santana Dias e acabamento impecável da editora Todavia, o livro, traz à tona uma reflexão sobre a preponderância de laços familiares e efetivos como confinamentos: sejam vivendo a partir deles ou os negando desde o isolamento forçado.

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TÍTULO: Laços AUTOR: Domenico Starnone EDITORA: Todavia ANO: 2017

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