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[Resenha] Em 'Não me abandone jamais', Ishiguro resgata o memorialismo

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Ishiguro usa o sentimentalismo como arma contra os clamores de progresso científicos que ferem a ética.

Por Giovana Proença


O autor Kazuo Ishiguro (imagem: Grupo Companhia Das Letras).

O Nobel de Literatura de 2017, concedido ao nipo-britânico Kazuo Ishiguro, reviveu a surpresa da edição anterior do prêmio, que laureou o cantor e compositor Bob Dylan, uma vez que o nome do japonês Haruki Murakami era a grande aposta à condecoração. A distinção de Ishiguro justifica-se pela versatilidade do autor, elevado pela Academia Sueca pela emotividade de seus romances e a desnudez da ilusão de conexão com o mundo exposta no conjunto de sua obra.


A memória é o elemento definidor que perpassa a obra de Ishiguro. A complexidade de suas personagens reside no memorialismo dos fatos, contando com narradores em primeira pessoa, unindo presente e pretérito na reconciliação com escolhas e atitudes do passado. Seu consagrado livro Os vestígios do dia é o ponto culminante na retomada dos fatos dentro da prosa do autor. Mas em Não me abandone jamais o resgate das lembranças em questionamento adquire novos contornos a partir da ficção científica como plano de fundo, impactando no livre-arbítrio da protagonista, Kathy.


Pela voz e pela memória da narradora em seus trinta anos, conhecemos as proporções da sociedade distópica de Kathy: clones humanos são criados para doação de órgãos. O grande acerto de Ishiguro ao remodelar uma tópica ascendente na literatura desde o século XX é a ênfase na interioridade em conflito da personagem, que relata sua experiência como cuidadora nos centros de doações às vésperas de se tornar uma doadora. Privada de perspectivas futuras, Kathy encontra-se olhando para o passado: as vivências em um colégio interno que cria clones para futuras doações e a relação que construiu com seus colegas Tommy e Ruth.


O reencontro com os antigos colegas e a aproximação do destino selado são os ponto de partida da reconstituição de Kathy. O triângulo amoroso fadado à morte compartilha da descoberta de experiências sentimentais e da angústia de descobrir-se condenado. A vida de Kathy como cuidadora, assistindo a morte de seus semelhantes, mistura-se a ficção, pincelada pela força emocional na narração de suas memórias.


O valor do espírito humano e de suas contribuições são questionados pelo olhar de Ishiguro. No internato de Havisham -experiência que buscava humanizar os clones – os futuros doadores são incentivados a produção artística. Em seus anos de juventude, acreditam que o incentivo deve-se a apresentação de suas almas, gostos e paixões. Adultos, compreendem que o objetivo era colocar em xeque se os clones eram dotados de alma. Kathy, a cada linha, comprova que sim. A crueldade de seres criados para morrer é derrubada pela vivência da narradora, que deposita em nós toda sua potência sentimental.


Não me abandone jamais ganhou uma adaptação cinematográfica, dirigida por Mark Romanek e indicada a seis categorias no British Independent Film Award. Em nuances sombrios, o filme desvela a melancolia e a nostalgia da obra de Ishiguro. A força do memorialismo rege a vivacidade do livro, carregando no título o nome de uma fita que Kathy ouviu nos tempos de internato. A narradora nascida para morrer, na falta de um futuro, volta- se para o passado em tentativa de reparação, atitude permissível aos que se veem condenados. Ishiguro usa o sentimentalismo como arma contra os clamores de progresso científicos que ferem a ética. Acima de tudo, o autor constrói uma reflexão sobre o espírito humano, em defesa da aceitação de limitações em detrimento de avanços desenfreados e do viver ciente dos limites.


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TÍTULO: Não me abandone jamais

AUTOR: Kazuo Ishiguro

EDITORA: Companhia das Letras

ANO: 2016

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