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[Resenha] Nobel de Literatura, Olga Tokarczuk estilhaça fronteiras imaginárias em sua terra natal

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Chegando ao Brasil com uma década de atraso, a obra da autora polonesa destaca a crueldade intrínseca ao espírito humano.

Por Giovana Proença


A autora Olga Tokarczuk (2019), por Harald Krichel.

As complexidades das relações antrópicas, destacando o elo entre o homem e a natureza, são fontes inesgotáveis para a tradição literária. Sobre os ossos dos mortos, romance da polonesa Olga Tokarczuk publicado no Brasil pela Todavia, bebe dessa fonte renovando do tema em um existencial suspense. Laureada pelo Nobel de Literatura de 2018, a escritora segue o êxito polonês na premiação maior, entre eles Wislawa Szymborska, nome conhecido em terras brasileiras.


No entanto, Tokarczuk foge ao nacionalismo, o Nobel chegou em um conturbado período político de ascensão reacionária na Europa, governos cujos moldes a autora é crítica ferrenha. Definida pelo “cruzamento de fronteiras como uma forma da vida”, prova da afirmação no enfrentamento das barreiras do idioma, a tradução de suas obras para o inglês orientou o reconhecimento internacional.


O cruzamento de fronteiras também é caro à Dusheiko, narradora de Sobre os ossos dos mortos. Integrando o grande time de personagens excêntricos da literatura, a loba solitária é uma senhora multifacetada, divide seu tempo entre o ensino de inglês, a astrologia e impedir a caça de animais silvestres – não esconde que prefere os animais aos humanos - prática normalizada na região que habita, próxima da fronteira com a República Tcheca. A trama desemboca em um suspense policial , crime e investigação se desdobram pela ótica única e discutível de Dusheiko. Pelos olhos dessa mulher de idade, o sinistro se une ao humor em uma singular prosa, aberta pela afirmação “Com a minha idade e nas minhas condições atuais, deveria sempre lavar bem os pés antes de dormir, caso uma ambulância precise vir me buscar à noite”.


As questões existenciais se entrelaçam ao romance policial a partir dos conflitos entre o natural e a civilização, projetando noções de humanidade e bestialidade. Dusheiko tem os animais em alta consideração, julga elevado o modo como vivem sem um norte para convicções e racionalidades que legitimam a barbárie. São essas grandes ideologias filosóficas que Tokarczuk culpa pelos ossos sobre os quais pisamos. A normalização da dor e da crueldade não é compreensível pelos olhos da múltipla narradora. Ela considera os assassinatos que assustam a comunidade uma vingança dos animais aniquilados, uma sanguinária revolução dos bichos que foge aos maniqueísmos críticos de Orwell.


O interesse de Dusheiko pela obra de William Blake é notável. O ato de traduzir os poemas do escritor inglês vem da necessidade de trazer para seu cenário os paradoxos que perpassam a obra do poeta. Blake, que viveu em plena escalada do Iluminismo, foi anunciador das contradições de seu tempo, que ressoam até o mundo atual. O misticismo e a malignidade que opõem as Canções da Inocência e as Canções da Experiência revelam dois estados opostos da alma humana. O mundo inocente e bucólico ameaçado pela repressão e o pecado iminente traduzem o ambiente de Sobre os ossos dos mortos. Para além, a força destruidora do ódio semeado e das armadilhas do crueldade encontram-se sintetizadas n’Árvore Envenenada de Blake “E cresceu noite e manhã/Até florescer luzente maçã/Ao ver o brilho que ela tinha/O inimigo sabia que era minha/E foi ao meu jardim roubar /Quando a noite velou o pomar/Bem cedo vi, com agrado/O inimigo sob a árvore estirado”


“Que mundo é esse em que matar em causar dor é tido como algo normal?” questiona Dusheiko. Embora a Polônia, repouso das cinzas dos ossos de Auschwitz seja local de horrores que justifiquem a escolha como cenário, a resposta ecoa no nosso mundo. A universalidade do mal escorre sanguinária pelas páginas de Sobre os ossos dos mortos. As ideologias e desculpas filosóficas para legitimar a bestialidade são a mira da arma de Tokarczuk. Chegando ao Brasil com uma década de atraso, a obra da autora polonesa destaca a crueldade intrínseca ao espírito humano. Mas é acalentador saber que por cima dos ossos, há uma Dusheiko na contramão, recitando versos de Blake com uma xícara de chá preto nas mãos que desfazem armadilhas da matança.


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TÍTULO: Sobre os ossos dos mortos

AUTOR: Olga Tokarczuk

EDITORA: Todavia

ANO (EDIÇÃO): 2019

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