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[Resenha] Toni Morrison discute racismo e literatura em 'A origem dos outros'

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Sentir empatia pelo estrangeiro é a possibilidade de se tornar estrangeiro, perder a “diferença” que os faz ser “superiores”

Por Sara Beatriz Rodrigues de Souza, colaboração para Frente & Versos



Toni Morrison, 1998. Photographer: © John Mathew Smith

Outremizar: definir quem são os outros, transformar o estrangeiro em uma outra coisa, por meio do racismo e violência, para conservar um lugar de privilégios e de dominação. A origem dos outros, livro escrito pela americana Toni Morrison é composto por seis ensaios sobre racismo e literatura. A autora nasceu em 1931, em Ohio, nos Estados Unidos. Toni Morrison formou-se em letras pela universidade de Howard. Romancista e a primeira negra a receber o prêmio Nobel de Literatura, o livro A origem dos outros foi inspirado na série de palestras que a autora deu na Universidade de Harvard sobre “a literatura do pertencimento”. A forma como o texto é escrito, permite uma fácil compreensão das reflexões abordadas pela autora e levam o leitor em uma viagem temporal sobre o racismo. Através de textos literários, documentos históricos e recordações pessoais da autora, os ensaios dissertam em tentativa de entender sobre a criação do “outro”, como e porque a humanidade criou essa barreira social baseada na cor da pele.  "Como uma pessoa se torna racista ou sexista? Já que ninguém nasce racista, e tampouco existe qualquer predisposição fetal ao sexismo, aprende-se a Outremização não por meio do discurso ou da instrução, mas pelo exemplo." A autora menciona que a romantização, assim como a força bruta, era utilizada para tornar a escravização mais “palatável”. O estupro era normalizado pelo droit du seigneur “direito do senhor”.


Termos científicos eram criados para basear a crueldade em ciência, alguns senhores de escravos escreviam em seus diários ações do cotidiano como açoites e estupros como mais uma de suas tarefas comuns, como plantação, bailes etc. Normalizar ações cruéis criam um exemplo a ser seguido. Os livros que retratavam negros e romantizam a escravidão na época tinham esse papel. Os leitores eram pessoas brancas que precisavam, queriam ou conseguiam apreciar essa romantização.

  Sentir empatia pelo estrangeiro é a possibilidade de se tornar estrangeiro, perder a “diferença” que os faz ser “superiores”. Ao longo dos ensaios, certas passagens chocam o leitor, ações desumanas e inacreditáveis que aconteceram e continuam ocorrendo nos dias de hoje. A outremização é tão enraizada através do exemplo na sociedade que cidades norte americanas fundadas por escravos libertos mantinham uma hierarquia colorista baseada em quem era mais claro; mais misturado, menos negro.  Não sabemos se os muros sociais continuarão mantidos pela cor da pele, teoria de raças e culturas diferentes, entretanto os apontamentos feitos por Morrison em A Origem dos Outros são um bom começo para começar a repensar nossas atitudes há tempos normalizadas.


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TÍTULO: A Origem dos Outros

AUTOR: Toni Morrison

EDITORA: Companhia das Letras

ANO (EDIÇÃO): 2019


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