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Roda minguante

\\ CRÔNICAS

Hoje eu fiz meu café, depois lavei umas roupinhas e fui até a padaria ali da esquina comprar pão.

Por Sibélia Zanon*


"Ternura" (1989), de Oswaldo Guayasamin.

Quando ela se sentou pela última vez, a panela de pressão já havia quase implodido a casa por uma dezena de vezes.


Depois disso, não se levantou mais. Pelo menos, não sozinha.


Já estava longe de casa fazia meses, mas a mente acostumada insistia em se perder na geografia.


- Hoje eu fiz meu café, depois lavei umas roupinhas e fui até a padaria ali da esquina comprar pão. - Dizia para os conhecidos e para os outros também.


O corpo esperava largado na cadeira. A mente não. Pouco afeita a esperas, percorria circuito tortuoso em busca da memória. Talvez, o mesmo circuito que galgava em direção ao esquecimento. Aquele esquecimento. O definitivo.


Mas um fio se irmanava àqueles cabelos brancos, grudando a cabeça ao corpo e sustentando a vida. Era fino e resistente, feito teia que assegura unidade ao ninho do beija-flor. Inquebrantável.


Por incontáveis dias, o curso da mente, ainda que errante, não se embrenhava em labirintos. Não havia centro a conquistar. A mente rodava, sim, em espirais por ciclos repetitivos, sem o S do Senna. Carecia de emoção para percorrer tal curva.


- Hoje eu fiz meu café, depois lavei umas roupinhas e fui até a padaria ali da esquina comprar pão.


Em outros dias, para contrariar, a memória decidia desatar nós antigos da família e lamentava, em tons emprestados de um urutau, as tragédias que ninguém queria lembrar.


- Ele morreu, sabe? Tão menino. Ele saía com aquela moto tarde da noite. Tão perigoso. Um dia aconteceu. Um caminhão...


Uma lágrima se esgueirava pelos sulcos da face enquanto as mãos, em postura de reza, sabiam ser o esquecimento a benção suprema.


Ninguém escapava àquela cena. Quem quer que estivesse por perto tentava dissuadi-la de recomeçar a tortura. Logo preenchia o breve vazio com perguntas banais, cujas respostas ela não mais sabia.


- E a Vera, como está?


Ela falava qualquer coisa que aparecesse em sua cronologia torta. Às vezes, a Vera trabalhava na pizzaria, às vezes fazia arranjos florais, às vezes voltava a ser a filha pequena que brincava logo ali no quintal. Como se a porta do quarto fosse um túnel para o ontem.


- Você não está ouvindo? É a Verinha.


Mas havia também os dias melhores. Neles, ela cantava Roberto Carlos:


- Ai, a rua escura, o vento frio

Esta saudade, este vazio

Esta vontade de chorar

Ai, tua distância tão amiga

Esta ternura tão antiga

E o desencanto de esperar.


Acontece que muito era exigido dos dias melhores. Constantemente eles duelavam com os dias de alergia que, avermelhados, cobriam barriga e braços. Disputavam ainda sua soberania com a cuidadora. Um segundo e... a moça conduzia a cadeira de rodas para uma curva errática, transformando um simples dedão do pé numa escultura pós-moderna.


Aí sim, ganhávamos, enfim, o S do Senna.


Na última vez em que estive lá, ela perguntou:


- Você é meu irmão?


- Não, mãe.


Foi quando ela começou a chorar.


- Não sei o porquê. Eu vivo esquecendo das coisas.


Então, eu a abracei e ficamos ali. Até a memória passar.


*É Jornalista e escritora, também é colunista convidada de Frentes Versos.

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