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[Resenha] Romance de autor gaúcho aborda questões familiares em lapsos memorialísticos

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Ambientado em solos conservadores, nas profundezas do Rio Grande do Sul, descobre-se um personagem moldável através de suas memórias


Por Isabella Marzolla, Colaboração para Frente & Versos

(Marcelo Brum/divulgação/DIVULGAÇÃO/JC)


O romance, com tintas rústicas, Roupas Sujas (Companhia Das Letras, 2017) de Leonardo Brasiliense, conta as memórias familiares de um “Brasil profundo” através dos olhos, na maior parte dos capítulos, do protagonista Antônio, de oito anos. A história é ambientada em uma pequena colônia rural do Rio Grande do Sul, em 1970.

Em uma família tradicional de colonos Pedro, o caçula, já nasceu carregando um fardo: não teve tempo de conhecer quem o pariu. Com um pai áspero como a terra batida da lavoura, os filhos assumem mais responsabilidades, preenchendo a vida simples que a família levava. Antônio limpava espingardas e ajudava a irmã, Valentina, de doze, a cuidar do mais novo, Pedro. Gêmeos Ferrucio e Estevam auxiliavam o pai no campo, e as duas filhas mais velhas cuidavam dos afazeres domésticos.

O autor explora a personalidade de cada um dos sete filhos, com a dor, a perda, a frustração e a tristeza. A trama familiar passa por turbulências com perdas, desavenças familiares; que não parecem gerar grandes expressões sentimentais no lar da família, onde não há espaço para esse tipo de sentimentalidade, como ressaltado pelo autor muitas vezes: “(…) O que não é falado, não deixa de existir” – assim o silêncio prevalece, prendendo tensões e anseios na cabeça dos personagens.

Amadurecer em um ambiente tão hostil moldou a identidade, de maneira diferente, para cada filho, que acabaram se tornando adultos amargos. A atmosfera da situação da família e a colônia evidenciavam o conservadorismo gaúcho da década de 1970, como por exemplo, a necessidade da filha mais velha se casar primeiro, que no livro foi um dos conflitos enfrentados pela Geni, justamente a primeira filha, que “perdeu a vez” do casamento para a segunda mais velha. Um dos grandes conflitos passados pela família no livro mostra a competição de dois irmãos pelo coração da mesma moça. Os preconceitos, as inseguranças, as frustrações e tristezas eram enterrados no fundo da cabeça de cada um dos personagens, que o autor retrata serem bem divergentes.

Brasiliense descreve os pensamentos ocultos de cada personagem na história quando ele troca a “visão”/narração de Antônio para seus outros irmãos, que se tornam protagonistas em cada capítulo. O autor utiliza-se da idade e da personalidade de cada membro da família para situar o leitor, com uma escrita mais inocente, no caso do caçula, que com oito anos batalha para compreender o mundo e os conflitos que vive em casa; ou com a escrita mais rígida e madura quando se trata de um irmão adulto.

É no âmago dessa família, por vezes, distópico que a trama se passa. Se é na infância que surgem nossas neuroses, que nossa personalidade é moldada, onde nos são passados valores e tradições, o autor explora bem esse viés e nos toca o coração.

Leonardo Brasiliense ganhou o Prêmio Jabuti com o livro infanto-juvenil Adeus Conto de Fadas (7Letras) em 2006 e por Três Dúvidas (novelas, Companhia Das Letras) em 2010, e é um romancista brasileiro com uma escrita extremamente fluida e que prende o leitor ao abordar de maneira sensível e humana questões primordiais que todos passam.


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TÍTULO: Roupas Sujas

AUTOR: Leonardo Brasiliense

EDITORA: Companhia das Letras

ANOS: 2017

















(Os textos de colaboração não expressam necessariamente a opinião da F&V)

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