• Giovana Proença

'Só', de Adriana Calcanhotto, é lançado em momento em que nada está no lugar

\\ARTE


Voz consagrada da MPB, a cantora nos dá um retrato da quarentena, e não pede devolva-me. Dançamos, choramos e lembramos ao som de Só. A melancolia e a nostalgia equilibram-se nos trapézios de Adriana Calcanhotto.

Por Giovana Proença


Capa do álbum 'Só', de Adriana Calcanhotto — Foto: Murilo Alvesso / Arte de Mike Knecht.

Nunca tivemos uma poeta como Adriana. Em meio a quarentena, dançar sozinho ficou melhor nessa sexta-feira (29). A valsa do isolamento ganhou nova trilha sonora com o lançamento de Só, álbum de Adriana Calcanhotto. Composto e gravado durante a reclusão, Calcanhotto nos presenteia em nove músicas com uma mescla à moda da MPB. Influências de ritmos notáveis da discografia da cantora são captadas pelos ouvidos de seus adeptos: o samba, a bossa-nova e o pop se derramam em harmonia, rendendo-se em surpresa as batidas do funk. O espanto é puramente das melodias, Adriana se mostra aberta as novas manifestações e vozes , tendo sido entusiasta de seu álbum tributo Nada ficou no lugar (2018), gravado por artistas da nova cena musical brasileira.


A poeticidade de Adriana Calcanhotto se manifesta desde seus antigos hits. Em Perfil coletânea de sucessos da cantora, as faixas desfilam o sentimentalismo que paira sobre as cenas rotineiras da composição pelo olhar aguçado e minucioso de Calcanhotto. Enfatizando o nome, Perfil traça a imagem da subjetividade poética da cantora. Cartas rasgadas, retratos devolvidos, xícaras quebradas, discos arranhados e vestígios de perfumes. Longo é o inventário de rastros do sentimentalismo de Adriana. A cinza das horas, imagem poética de Manuel Bandeira para os restos de um carnaval, estão marcados no ritmo de “Vambora”. A força do memorialismo e do pisar às brasas repetem-se com potência em.


Ritmo é adereço, a força das letras das canções sustentam a musicalidade da poesia da escrita. Acima de tudo, compositora. Mestra das palavras, poeta do cotidiano e tradutora da emotividade; epítetos que vestem a habilidade da composição de Adriana. Referências aos cenários da quarentena são fotografias captadas por Adriana. A faixa de abertura, “Ninguém na rua”, abre-se com uma mistura de ritmos, “o batidão do peito” confunde-se as batidas do funk ao fundo. Em um cenário de céu preto e vazio, o sentimentalismo é trazido pela memória “eu e você no pensamento/ eu e você na imaginação”.


“Era só”, talvez a canção mais marcante do álbum, aproxima-se dos sons típicos de Calcanhotto. Mais do que um diálogo com o isolamento, o estar sozinha é marcado pela emotividade amorosa, versos sobre o amar solitário conquistam os que tiram as (des) ilusões para dançar na reclusão. “Eu vi você sambar” regata a memória pelo olhar, os desejos de um novo encontro, um novo vislumbre. De tom esperançoso, uma luz para os que anseiam por reencontros.


“O que temos” é onde a temática da quarentena alcança contornos mais objetivos. As cenas delineadas pela composição da cantora traduzem-se em janelas e sacadas, o espiar e sutis convite para proximidade embalam a canção. Se os olhos são as janelas da alma, as janelas são os instrumentos do olhar, na voz de Calcanhotto. “Sol quadrado”, em toadas de samba, dosa o isolamento e a liberdade. A alusão ao termo prisional confere múltiplas interpretações à música. Nos perguntamos qual a verdadeira cela.


“Tive notícias suas” anuncia a invasão das informações - levadas ao campo sentimental - atravessam a voz da canção sem pedir licença. O coração adormecido nas trevas da quarentena sai da espera da quaresma, balançado pelas notícias que correm. Sentimental, é a toada de melancolia da vez. “Lembrando da estrada” é a recordação do movimento e do tempo que escorre. Cenas da vida passageira e das revelações são pintada na composição artística. A nostalgia é delgada, conseguimos ver o sorriso delineando-se nos lábios de Calcanhotto ao interpretar a faixa.


A última dupla que compõe o álbum são o resultado de experimentações da linguagem fundidas a batida. “Bunda Lê Lê” é o funk da quarentena, mixada por Dennis DJ, com quês da poesia concreta em suas repetições, reproduzindo o questionamento “O que que faz na quarentena/ Na quarentena o que que faz?”. Dificilmente o beat de Calcanhotto chegará aos bailes, mas a cadência de repetição que reflete o isolamento conquista pelo som. “Corre o munda” é uma Canção do Exílio às avessas: a compositora “sem eira nem beira” não tem rimas para Coimbra, a apropriação dos versos de Gonçalves Dias exaltam os céus cinzas. Adriana teve seus planos de voltar à Portugal adiados pela epidemia do Covid- 19.


A poética de Adriana resgata a lembrança que foge arredia. O subjetivo em contemplação de um exílio volta-se para o memorialismo sentimental, a visita do sujeito que se vê só. Mas há toadas de esperança na solidão. Os ritmos bem explorados acompanham a versatilidade, e sabem dançar a trilha da melancolia. Voz consagrada da MPB, ela nos dá um retrato da quarentena, e não pede devolva-me. Dançamos, choramos e lembramos ao som de Só. A melancolia e a nostalgia equilibram-se nos trapézios de Adriana Calcanhotto. A compositora alastra as cinzas das horas, mas também sabe ser terça de Carnaval.

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