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Paulo Leminski, haicais e muito mais

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Por Luíse Goulart, Especial para Frente & Versos

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Escritor, poeta, crítico literário, tradutor e professor – nasceu no dia 24 de agosto de 1944 em Curitiba, teve uma vida rodeada de artistas e desde sempre se destacou por sua admirável intelectualidade. Leminski bebeu de fontes da cultura japonesa no que diz respeito ao seu modo de fazer poesia, adotando o estilo poético o Haicai, no qual se apoia em dois elementos: a concisão e a objetividade. De maneira geral, trata-se de poemas curtos de fácil entendimento, sendo Paulo Leminski, Millôr Fernandes e Guilherme de Almeida seus principais representantes brasileiros.     

                                                         

Em 1963, Leminski participou do I Congresso Brasileiro de Poesia de Vanguarda em Belo Horizonte conhecendo poetas do concretismo, entre eles Haroldo de Campos, que depois virou seu amigo e parceiro em várias obras. Casou-se aos 17 anos com Neiva Maria de Souza (desenhista e artista plástica) e se separaram em 1968.                                                                        

Seus primeiros poemas foram publicados em sua estreia, em 1964, na revista Invenção, dirigida então por Décio Pignatari, em São Paulo, porta-voz da poesia concreta paulista. Já em 1965, tornou-se professor de história e redação em cursos pré-vestibulares e, no ano seguinte, foi classificado em primeiro lugar no II Concurso Popular de Poesia Moderna, promovido pelo jornal O Estado do Paraná. Casou-se pela segunda vez com a poetisa Alice Ruiz em 1968, com quem passou 20 anos. Conviveram, por mais de um ano, em uma espécie de comunidade hippie até a chegada de seu filho, Miguel Ângelo, o primeiro dos três que teria.                                    

                                                    

Leminski aderiu ao movimento da contracultura que surgiu nos anos 1960, contribuiu para revistas alternativas e, por isso, é tido como poeta de vanguarda ou até mesmo aproximado aos poetas marginais. Ele se fez também letrista e músico abraçando as oportunidades que sua realidade cultural lhe proporcionava. Durante a década de 1960 surgiram os movimentos culturais e sobretudo musicais da Jovem Guarda e da Tropicália, que apesar de abordarem temas e objetivos diferentes daqueles que Leminski tinha, falavam a mesma língua: ambos permitiram o diálogo entre a linguagem poética e a música brasileira. Visto isso, o poeta paranaense aventurou-se no terreno fértil da Música Popular Brasileira (MBP) e chegou a fazer parcerias com Caetano Veloso, o grupo A Cor do Som e a banda de punk-rock, Beijo AA Força. Inclusive a faixa Verdura, de sua autoria, de 1981, foi gravada por Caetano Veloso no disco Outras Palavras.


Na década de 1970 seus poemas foram publicados em diversas revistas, entre eles Corpo Estranho, Muda Código e Raposa. Após um período de aproximadamente oito anos, finalmente, em 1975, concluiu Catatau, uma de sias obras mais famosas, porém menos conhecida que suas produções poéticas, sendo uma prosa experimental, classificado pelo próprio autor como um romance-ideia, onde é explorado o limite entre a prosa e a poesia. Tentando resumir a “grande viagem” proposta do Leminski, Catatau trata supostamente de alucinações do filósofo René Descartes, caso tivesse vindo ao Brasil junto com a armada de Maurício de Nassau, durante as invasões holandesas no séc. XVII. O título do livro é uma anedota do tempo em que o escritor e sua família moravam na pensão Solar da Fossa, quando se mudaram para o Rio de Janeiro, remetendo ao que seus colegas diziam ao vê-lo andando por todos os lados com os livros de referência “Lá vem o Leminski com aquele catatau embaixo do braço”.                         

    

O autor traduziu alguns trechos de sua obra Catatau, para o castelhano e o inglês, embora a tradução da obra integral ao espanhol não tenha sido de sua autoria. No entanto, por falar seis línguas estrangeiras (inglês, francês, latim, grego, japonês e espanhol), entre 1984 e 1986 em Curitiba, Leminski foi tradutor de Petrônio, Alfred Jarry, James Joyce, John Fante, John Lennon, Samuel Beckett e Yukio Mishima.

                                   

Sua casa, no bairro Pilarzinho, em Curitiba, era espécie de reduto intelectual da região, recebendo artistas que passavam para trocar ideias e realizar parcerias em composições musicais e poesias, figuras como Moraes Moreira, Gal Costa, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Toninho Vaz, Ademir Assumpção e Itamar Assumpção passaram por lá.                                                    

O artista e intelectual morreu em 7 de junho de 1989 aos 44 anos por conta de uma cirrose hepática que o acompanhou durante anos. Porém, vale lembrar que um escritor como ele não deve ser esquecido ou deixado de lado, por isso seguem três de seus poemas e uma lista com algumas de suas obras.


Dor elegante

Um homem com uma dor É muito mais elegante Caminha assim de lado Com se chegando atrasado

Carrega o peso da dor Como se portasse medalhas Uma coroa, um milhão de dólares Ou coisa que os valha


Ópios, édens, analgésicos Não me toquem nesse dor Ela é tudo o que me sobra Sofrer vai ser a minha última obra


Razão de ser

Escrevo. E pronto. Escrevo porque preciso, preciso porque estou tonto.

Ninguém tem nada com isso. Escrevo porque amanhece, E as estrelas lá no céu Lembram letras no papel, Quando o poema me anoitece.

A aranha tece teias. O peixe beija e morde o que vê. Eu escrevo apenas. Tem que ter por quê?


O que quer dizer

O que quer dizer diz. Não fica fazendo o que, um dia, eu sempre fiz.

Não fica só querendo, querendo, coisa que eu nunca quis. O que quer dizer, diz.

Só se dizendo num outro o que, um dia, se disse, um dia, vai ser feliz.


Obras de Paulo Leminski:

Catatau (1976) Não Fosse Isso e Era Menos/Não Fosse Tanto/e Era Quase (1980) Caprichos e Relaxos (1983) Agora é Que São Elas (1984) Anseios Crípticos (1986) Distraídos Venceremos (1987) Guerra Dentro da Gente (1988) La Vie Em Close (1991) Metamorfose (1994) O Ex-Estranho (1996)

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