• Bruno Pernambuco

Shakespeare, universal

\\ ESPECIAIS

Viva Shakespeare, escritor do humano, dos altos e baixos, do amor, da selvageria, do peso da razão e da dúvida à qual nada sobrevive!

Por Bruno Pernambuco



Imagem/divulgação


É uma data contraditória a comemoração do aniversário de Shakespeare. Há a indefinição quanto a seu verdadeiro nascimento, encoberto pelos confusos trâmites de registro de nascimento na Inglaterra arcaica. A única efeméride certa é de sua morte, no dia 23 de Abril, que acredita-se ser o mesmo de seu aniversário. Toda a comemoração, assim, é celebração da morte, todo júbilo é carta de despedida, e é difícil acreditar que o bardo fosse aceitar algo que não fosse a diabrosa ironia.


E, com todos os seus percalços, a homenagem é sempre pertinente, além de muito bem-vinda. Trata-se, pois, daquele que é, de muitas formas, o fundador de nossa humanidade- pelo menos dessa humanidade ocidental. À primeira vista, a ideia de traçar um perfil de Shakespeare parece, além de absurda, irrealizável. Como seria possível descrever toda a humanidade, uma consciência universal, o nascimento do humano como o conhecemos?

É por essas questões que é impossível fazer um pefil tradicional de Shakespeare, delineando-lhe características, experiências, ou nele buscando uma definição fechada de um tema específico. Pois, se em alguns momentos o autor parece expressar algo a seu respeito, que pode ser lido em personagens como Hamlet ou como John Falstaff, cavaleiro de Henrique V, lendo a obra de Shakespeare o que se encontra lá é uma universalidade da experiência humana. E isso é evocado, por seu autor, a partir de um poder que é, também, humano, e não divino. Shakespeare ainda é um artista, e nem mesmo o inventor do humano, como definiu Harold Bloom, poderia traduzir, num solilóquio, ou num único soneto, a completude da experiência. Em nenhum desses momentos Shakespeare fala em absolutos, ou apresenta algo que não possa ser contradito, nem visto de outra forma. Sua revolução está no movimento. No movimento de uma consciência atribulada, contraditória, traduzido em movimento narrativo, que assim cria um tipo completamente novo de literatura, e inaugura um novo personagem, aquele que não é definido por suas ações, e pelo quão interessantes são estas para a história que o todo-poderoso autor busca apresentar, mas por seu caráter; o personagem que não é um tipo, mas um ser humano, de vida completa.

Essa curta lembrança se foca no Shakespeare dramaturgo, muito por conta dessa revolução da forma que brota em sua obra teatral, mas em seus sonetos, embora lá se veja um Shakespeare muito mais íntimo que qualquer coisa que possa se enxergar nas peças, também está presente essa experiência que dialoga com a universalidade. O mesmo mudo e doce pensamento, a quem a lembrança visita no soneto número trinta, é onde habitam Iago, e as fantasias de Lord Macbeth, também nossas e que nos transformam em assassinos, tiranos e estupradores. Esse estado, de certa forma essencial, da alma humana, é presença constante de uma leitura de Shakespeare- e também da memória que ficou até hoje do bardo, como um “cânone dos cânones”, ou uma espécie de sinônimo do teatro moderno- autor em que a revolução linguística, fazendo nascer o inglês a sua versão moderna, alterando completamente estruturas profundas da língua, conjurando mudanças que perduram até hoje, a transformação do teatro em algo completamente distinto, a criação de um tipo de personagem, sem lugar nas amarras anteriores, convergem todos para uma expressão única daquilo que é a experiência do humano, em todas as suas facetas e contradições, em sua consciência cindida, em sua reflexão a respeito de si próprio e consciência de sua própria ação. Viva Shakespeare, escritor do humano, dos altos e baixos, do amor, da selvageria, do peso da razão e da dúvida à qual nada sobrevive! E que essa celebração de morte do corpo do homem possa ser um desejo de que continue, por muito tempo, vivendo sua alma, como vive, quando vivemos nós essa humanidade que ele gestou.

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