• Matheus Lopes Quirino

Silêncio na cidade

\\ CADERNO DE ANOTAÇÕES

Verticalizados nesse pedaço nostálgico revestido de cimento, tijolos e azulejos da década de oitenta, o Lurdes é o recheio entre a rua Bela Cintra e a Augusta.

Por Matheus Lopes Quirino


Ilustração de Ligia Zilbersztejn.

Aqui do Lurdes, 24 horas por dia barulhos chegam aos ouvidos. A vizinha de cima resolveu recauchutar o banheiro quebrando tudo. Daqui de baixo, no quarto, ouve-se britadeiras removendo pisos, picaretas martelando chão, azulejos sendo retirados por dentes de martelos, louças caindo, espatifando. Um sobe e desce e uma caçamba dessas grandalhonas cheia. Um banheiro é tão paramentado desde quando? Quilos e quilos de entulho enchem até a boca a caçamba um. No dia seguinte chega a número dois, e o banheiro vai abaixo. Assim está sendo há dias. Mas não termina aí.


Na frente do Lourdes, na ruazinha que desemboca no fervo da Augusta, a companhia de energia elétrica resolveu soterrar todos os fios dependurados pelos postes da rua. Tarefa essa que durou dois dias, movendo dezenas de homens com britadeiras, retroescavadeiras, picaretas, martelos, estacas, caldeirões com asfalto quente e grossos tubos plásticos sanfonados preto. Com obras no banheiro de cima e na frente, o Lurdes se transformou no condomínio mais barulhento de São Paulo na segunda semana de novembro. E não bastasse essas obras, os ouvidos atentam ainda para as buzinas dos carros, os fanfarrões da madrugada e fim de semana, as velhas portas batidas pelo vento, os gritalelês, por aí vai.


Verticalizados nesse pedaço nostálgico revestido de cimento, tijolos e azulejos da década de oitenta, o Lurdes é o recheio entre a rua Bela Cintra e a Augusta. Do alto do segundo andar se escuta quase tanto quanto se vê. De brigas de casais lubrificados pela bebida barata da vizinha Augusta a cordões nada estratégicos no carnaval de rua, vale se instalar no Lurdes, ou em qualquer outro prédio da rua, para buscar inspiração – e às vezes emoções. Não vale entrar no mérito das brigas que acabam em desemboques policiais, o coqueirinho que virou coxo, na contramão do fervo que aqui sobem alguns carros – e nos tantos velhinhos que gritam da porta do Lurdes e vizinhos “É contramão! É contramão!”.


Há raras tardes (pensando bem, cada vez menos raras assim) que brota no Lurdes e em todo quarteirão um silêncio ensurdecedor, uma paz incomum, uma sinfonia calma e plácida da brisa. São os dias em que o ouvido está devidamente entupido, e no Lurdes, ou em qualquer lugar que os pés alcancem pelos arredores de cá, São Paulo se transforma em uma cidade do silêncio, até, pelo menos, a retomada da próxima obra ou dos ouvidos.

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