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Síncope

\\ INFINITUDES

O desmaio de uma pessoa com síndrome vaso-vagal é aparentemente repentino. Num segundo, se está bem; no outro, no chão.

Por Isabela Nunes, colaboração para Frentes Versos


'Nude No.3' Giclée Print (IMagem/Reprodução: Kit Agar)

O desmaio de uma pessoa com síndrome vaso-vagal é aparentemente repentino. Num segundo, se está bem; no outro, no chão. A coisa toda, do momento em que a visão fica turva até o se levantar do chão, não dura mais que alguns minutos —  por isso, é sempre preciso agir rápido quando a síndrome ameaça atacar. Caso se demore um segundo sequer, se torna tarde demais para impedi-la. Às vezes, mesmo que se aja a tempo, ainda assim já é tarde: seu nervo vago te trai e a queda é definitiva. Nesse caso, talvez você acabe se encontrando no chão do Burguer King com rostos confusos olhando pra você. Ou no meio da sala de aula, com os olhares amedrontados dos colegas que pensaram que você morreu observando as mesas e cadeiras espalhadas que seu corpo derrubou para lhe fazer companhia. Ou no meio da festa de aniversário da sua amiga, com o vestido levantado até a cintura e os convidados tendo uma visão privilegiada da sua calcinha. Ou, ainda, no sofá da manicure, com apenas o som da sua voz: “ah não, de novo?”, quando você acorda. O segredo é andar sempre preparada para um encontro repentino com o chão, porque nunca se sabe onde seu corpo decidirá apagar. E, bem, usar calcinhas bonitas.


Mas o desmaio de uma pessoa com síndrome vaso-vagal é só aparentemente repentino: há sinais claros. Cada levantar de braço e passo de perna se tornam esforços hercúleos. O corpo fica estranho, fraco, meio oco: a sensação de alma e matéria se descolando um do outro. Os lábios ficam brancos, o rosto perde a cor. É nesse momento que, se você não se deitar ou se sentar com a cabeça entre as pernas, você cai. Antes de a visão começar a se encher de pontinhos pretos, ela fica turva e você ganha alguns graus de miopia: é preciso forçar os olhos para enxergar. Quando o primeiro ponto preto aparecer, se prepare. É questão de segundos até seu corpo te trair. A queda não vai doer, você não a vê. Você vai achar que está dormindo e sonhando; as vozes no fundo serão apenas zumbidos incômodos. Você vai acordar dez segundos depois, com a sensação de que se passaram anos. Seu rosto estará formigando. Você levará alguns poucos segundos para se localizar, entender o que aconteceu e pensar ah não, de novo não. Talvez você se decepcione com o fato de que não estava sonhando, de que não se passaram anos e de que aquela é a sua vida.


É preciso prestar atenção nos sinais. A queda não dói, mas você fica com muitos roxos incômodos. E há sempre o perigo de cair em cima de alguma coisa pontuda.


Ela pensava nisso com a cabeça encostada no volante, esperando a chuva passar. Quando era pequena, acreditava que desmaiava porque sentia demais e, quando o corpo se sobrecarregava, precisava de um reset. Como se fosse um balde de água que se enche pouco a pouco com as gotas da chuva e, quando está prestes a transbordar, tomba e se esvazia. Ela sentia que precisava ser esvaziada de vez em quando. Se ficava muitos meses sem desmaiar, ficava impaciente: a ideia do que aconteceria quando toda a sua cota de emoção se esgotasse a preocupava terrivelmente. Não foi até muitos anos mais tarde que um neurologista teve a decência de explicar-lhe a verdadeira causa de seus desmaios: o nervo vago que, num ato de rebeldia, parava de bombear sangue ao seu cérebro. Não tinha nada a ver com esvaziar, descarregar ou resetar. Era uma explicação menos poética, mas ela a aceitou, passou a evitar a enorme lista de coisas que deixavam seu corpo nervoso e não pensou mais nisso. Quer dizer, até agora. Agora ela pensava muito nisso. Pensava nos sinais e na sua cota de emoção. E na glória e traição do corpo caindo.


Fazia muitos anos que não desmaiava.


Mais cedo, eles haviam saído para jantar. Era a primeira vez em muito tempo que faziam algo fora de casa, mas as expectativas estavam baixas desde o princípio e, ainda assim, foram altas demais. Fora ela que insistira que saíssem, porque estava cansada de sempre fazerem a mesma coisa. Ele ficou irritado: não queria jantar, não queria conversar, não queria nada. Precisava dela para um único propósito, que não incluía nada disso. Em quarenta minutos, saíram, comeram e voltaram para o apartamento dele. Ela não quis comentar nada, mas seu corpo parecia estranho e ela se preocupava com a qualidade do macarrão que tinham acabado de comer. Ele também pensava no corpo dela enquanto trancava a porta, pegava o vinho e as taças e sentava-se na cama. Ela contou sobre o livro que estava lendo e sobre como aquele autor se comunicava com o âmago de seu Ser. Ele olhava pela janela. Não respondeu. Perguntou-lhe por que se sentava tão longe dele.


Ela sentiu que o entediava. Abaixou os olhos, com vontade de chorar. Sabia que ele não perceberia — talvez pensasse que fosse apenas o brilho dos seus olhos —, mas não queria arriscar. Fingiu que estava analisando qualquer coisa de interessante no chão. Ele contou uma piada. Ela sorriu, um sorriso sem cor. Deu um beijo na bochecha dele, ainda com os olhos baixos, e disse que precisava ir ao banheiro. Levantou-se com pressa, apertando forte as mãos para evitar que a tempestade que se construía dentro dela desabasse. Fechou a porta do quarto, silenciosamente pegou sua bolsa na sala e saiu. Enquanto esperava o elevador, se perguntou se deveria voltar. Ele com certeza pensaria que ela era doida. Pronto: a primeira lágrima caiu. Não havia mais volta. Começou a chover.


Tempestade. Elevador. Rua. Chaves. Carro.


Lá embaixo, ela escorou a cabeça no volante. Não queria voltar para casa ainda. Pensou em síncopes e na sensação estranha de que sua alma estava se descolando de seu corpo. Sentiu vontade de vomitar. Sentiu que sua alma perderia a luta e não conseguiria se descolar e ela estaria para sempre presa dentro de si mesma. Ninguém nunca a veria, a desvendaria, a conheceria. Ninguém nunca a compreenderia. Havia uma barreira intransponível entre ela e o mundo e, por mais que ela tentasse, por mais que ela falasse, por mais que escrevesse, o que tinha dentro dela seria para sempre só dela e de ninguém mais. A solidão era um decreto irrevogável.


Mas ele era a exceção, o único que conseguia ver através de seu corpo e chegar em sua alma. Sim, ele era o único que a ouvia de verdade, o único que sabia quem ela era. Mas havia algo errado, ela sabia. Ela se sentia estranha perto dele. Meio oca. E era cada vez mais difícil alcançá-lo: ele fugia, se afastava, se esquivava. Cada passo em sua direção era um esforço extraordinário, impossível. Mas ela se convencia, ainda assim, de que ele gostava dela, de que ele sentia alguma coisa, de que aquilo não era perda de tempo, desperdício de coração. Ela era especial para ele, dizia a si mesma. Aquela era uma conexão real: ele a via, a entendia como ninguém – só tinha medo, é claro; não tinha o mesmo poder de entrega que ela (e quem teria?). Ele precisava ser cuidadoso, evidentemente, mas também sentia alguma coisa. Ela sabia. Sim, sabia. Aquela mágica que pairava no ar, no espaço entre os dois, no intervalo de respirações, aquilo era real. Visceral. Tinha que ser. Não era possível que ela sentisse tudo aquilo e ele não sentisse nada: isso não. Aquilo daria certo. Ela queria tanto que desse certo. Se pelo menos ela não o entediasse… Se fosse menos sentimental… Se não fizesse tanto drama… Se pelo menos gostasse das mesmas coisas que ele… Talvez… Bem, talvez… Talvez ele não dissesse não dessa vez…


Mas ele sempre dizia não, ela sabia. Ela sempre arrumava jeitos criativos de fazê-lo voltar, mas ele sempre dizia não. Aí estava a diferença fundamental entre os dois: entre o sim e o não. Ela só sabia dizer sim. Tinha fome de sim, tão insaciável que era capaz de conter todos os sins do mundo. O não lhe era inconcebível; não existia em seu dicionário. Mas, no fundo, também era culpa dela que ele dizia não: ela insistia demais, era intensa demais. Intensa: a palavra de maior mau gosto da língua portuguesa. É claro que ele fugiria: ela o afogava e o afastava com a fúria obsessiva de seu sim. Mas ele gostava dela. Só tinha medo, é claro. Mas ele a via. Ela era especial. Sim, ele gostava dela. Mapeava sua alma através do corpo que ela lhe entregava com tanta devoção. Cada pedaço de si que ele tocava com seus dedos era um pedaço revelado, descoberto, inexistente até aquele momento. A gênesis no contato entre carnes que quase a cegavam com sua luz e quentura. Ela era fabricada nesses momentos, inventada. Era então que mais se sentia uma só com o mundo, como se corpo e alma e matéria e fogo e terra e ar de repente se fundissem e perdessem os contornos, a única palavra com qualquer sentido no universo sendo o Um. Una, poderosa, invulnerável: nesses momentos, ela era mulher de Deuses. Ela mataria por esses pequenos momentos de experiência religiosa. Aqueles pequenos momentos em que era incondicionalmente compreendida, momentos em que se voltar para si era se voltar para o mundo, para ele, para os céus. Era mágico. Por isso ela sempre o fazia voltar: ansiava terrivelmente por aquele incêndio que ele faiscava dentro dela e temia que, se não estivesse em chamas, estaria morta. “A tempestade do amor”, algum autor falara alguma vez. Não, o incêndio do amor: era essa sua necessidade mais essencial e mais inextinguível. Mas ela sabia que era exagerada. Não tinha nenhuma ilusão de que ele sentisse tanto quanto ela ou que lhe dedicasse a mesma devoção: era preciso muito empenho e fervor para alcançá-la. Não, nem em suas fantasias mais ousadas ela se permitia imaginar algo assim. Mas a ideia de que ele pudesse sentir nada… De que ele era imune àquela explosão de carne e alma… Não, isso não. Sim, ele gostava dela. Tinha que gostar. Porque se não gostasse… se não gostasse... Mas ele gostava. Sim. Ele gostava.


Mas e se não gostasse? Ela o entediava, às vezes. Quanto tempo até que ele se cansasse dela de vez? E ele fugia dela. Sim, ele fugia sempre. Se gostasse mesmo dela, não fugiria. Mas é que ele tinha medo… Mas, bem, se gostasse mesmo, teria medo e ficaria com ela mesmo assim. Mas talvez o medo fosse maior, talvez o medo dele o sufocasse. Mas o medo dela também a sufocava… e, ainda assim, ela corria em direção a ele em vez de fugir. Porque ela gostava dele. E se ele fugia, talvez ele não gostasse dela tanto assim. E se ele não gostasse… ela… Mas aqueles momentos… como ele poderia ser imune? Como poderia ser indiferente àquela fusão total em que a carne se torna sensível e tocada como o coração? Não, era impossível ser imune. Impossível que aquilo fosse só mais uma das ficções dela. Não, sim, ele gostava dela. Pelo menos um pouco. Mas um pouco é muito pouco… Um pouco é quase nada. Um pouco é nada. E se ele não gostasse… Mas ele tinha dito coisas tão bonitas daquela vez… Mas ela o entediava. E o que é que havia nela para que ele gostasse, pra começo de conversa? Ela o entediava. E ele, ele era tão interessante. Como alguém como ele poderia gostar de alguém como ela? Não… Mas talvez…


O peso da cabeça dela no volante acionou a buzina do carro sem querer. Um som agudo e irritante percorreu a rua. A chuva engrossou. Ela acordou do transe e destrancou o carro. Respirou calmamente o ar frio e sentiu as gotas fortes da chuva em seu rosto. Ela precisava saber se ele gostava dela como alguém precisa saber se o coração ainda bate. Mas seria tão embaraçoso voltar lá depois de ter saído daquele jeito e ele ficaria tão chateado de ter essa conversa… Por que ela não podia levar tudo numa boa, deixar isso pra lá? Por que não podia deixar as coisas serem como são? Talvez conversar com ele estragasse tudo. Talvez ele a achasse insistente e chata. Talvez, aí sim, ela o entediasse e ele fosse embora de vez. E aí seria culpa dela. Ela estragaria tudo. Se ela simplesmente soubesse como ser leve, como não se importar, como não sentir tanto, como esconder isso dele… Mas ela não sabia. Não conseguia. Ela precisava saber. Porque se ele não gostasse…


O elevador ainda estava no térreo. Ela apertou o oito e se escorou no espelho. Estava tão cansada, seu rosto estava tão cansado. Ela ainda se sentia estranha, meio oca. Às vezes, não sabia mais se realmente queria fazê-lo voltar: temia que só continuasse o fazendo por força do hábito. Não sabia se realmente o queria por perto, se fazia alguma diferença. Ela temia que o incêndio já tivesse se apagado há muito tempo e ela estivesse vivendo dos restos, das sobras. Porque o medo dela a sufocava. Medo de que ele pudesse sentir nada, de que ela o entediasse, de que nunca fosse compreendida, de que corpo e alma não se separassem nunca, de que ela morresse com palavras entaladas na garganta e elas nunca mais pudessem ser ditas. E o medo estava ali há tanto tempo… E era um extintor. Matava as chamas uma a uma. E ela não conseguia acendê-las mais. Ele não conseguia acendê-las mais. Ela se sentia estranha perto dele; mentia cada vez mais para si mesma, tentando recuperar a devoção. Mas não sentia nem a angústia, nem a mágica. Sentia apenas que talvez estivesse além dele: seu coração queria tanto dizer sim que não importava que não fosse pra ele, desde que continuasse batendo num sim sim sim interminável. Sentia que era maior que ele. Talvez nem importasse que ele dissesse não, porque o não dele se tornava tão pequeno diante do sim dela. Ela sentia tudo. Como poderia ficar com alguém que sentisse nada?


Talvez, se ele não gostasse dela, ela nem se importaria. Vai ver sua cota de emoção estivesse se esgotando. Ou vai ver ela fingisse, encenasse para si mesma o teatro dos dois para que pudesse continuar sentindo. Quem se encontra querendo tudo é porque está perigosamente perto de não querer nada, dizia Sylvia. Às vezes, parecia-lhe que ela mergulhava nele para fugir de alguma coisa inominável, alguma ferida monstruosa que se escondia dentro dela e a transformaria em pedra caso não continuasse evitando olhá-la nos olhos. A fuga-de que vira mergulho-em. Talvez ela devesse voltar para o carro e ir embora. Para sempre.


Mas ela não podia. Não, ele a compreendia. Ela sabia que sobre isso não estava errada. Ele a via, ele unia seu Eu com o Mundo. Ela era especial para ele, ela simplesmente sabia. Não podia ter imaginado tudo aquilo. Porque o que sentia quando estava com ele, aquilo era raro. Tinha que ser real. Tinha que ser. Se ele não gostasse… Mas ele gostava. E ela gostava dele. Sim, gostava. Eles só haviam se esquecido, é tudo. Mas era real. Era real, ela não inventara nada. É que o tempo estraga tudo. E ela estragara tudo porque o entediava. Mas ficaria tudo bem, tudo se resolveria. Fazia muito tempo que aqueles momentos de experiência religiosa não aconteciam mais, mas era sua culpa: ela se convertera ao ateísmo, inadvertida. Mas ainda ansiava por eles, os momentos, e pelo incêndio do amor, que tudo consumia e tudo acendia dentro dela. Ela voltaria a acreditar nele. Sim. Sua cota de emoção não havia acabado, ainda restava um pouco para ele, ela ainda não o ultrapassara. Ela ainda podia ser convencida. Ainda podia convencê-lo. Sim, ele diria que gostava dela. E então seria fusão total onde a carne se torna sensível e tocada como o coração. E então carne e alma seriam Um, e então ela fecharia os olhos e seria mágica, e então ela se lembraria e diria sim, e então ele diria sim, e então ela não seria grande demais, mas exatamente do tamanho dele.


Lá em cima, ele andava pelo apartamento. Ouviu uma batida leve na porta: era ela. Os olhos estavam um pouco inchados, o rosto meio sem cor, o cabelo enrolado e molhado com a chuva, que caía forte lá fora.


– Me desculpe. Acho que eu fiquei um pouco paranoica. Tive que respirar um pouco. Espero que você não ache que eu sou doida nem nada do tipo.


– É claro que não. Vem, vamos terminar aquele vinho que a gente comprou.


– Na verdade… eu… bem, eu meio que queria conversar uma coisa com você primeiro. Tudo bem?


– Claro.


– Bem, é que a gente se conhece há algum tempo… E eu gosto muito de você, você sabe… Nunca escondi… Gosto muito disso que a gente tem e tal… Eu sei que você não gosta dessas coisas, mas, bem… eu acho que preciso saber como você se sente, sabe. Porque eu gosto de você e tal. E tô ficando meio louca, eu acho. Então é, sei lá… como você se sente? Sobre mim?


Ele respirou fundo. Ela olhava no fundo de seus olhos. Ele se perguntou se havia sido muito sutil em seus esforços ao longo desses meses para mandar todos os sinais possíveis da resposta verdadeira àquela pergunta. Bem, hora de carregar mais essa pedra, ele pensou.


– Então… É que eu não queria me envolver, você sabe. Você é muito legal e tal… Mas eu acho que não…


A visão dela ficou turva. Forçou os olhos para ver a expressão no rosto dele, de repente a quilômetros de distância. Sentiu que o entediava. Sentiu que não poderia caber no não dele. Sentiu que precisava dizer sim.


O primeiro pontinho preto apareceu.


Sentiu que a alma lhe escapava.


O desmaio de uma pessoa com síndrome vaso-vagal é aparentemente repentino. É preciso prestar atenção aos sinais, pois há sempre o perigo de cair em cima de alguma coisa pontuda. Na lista de coisas que irritam um nervo-vago e geram uma síncope, o décimo quinto tópico é: emoções extremas. Ela não estava errada: o neurologista apenas focara demais no corpo e esquecera que a ele se entrelaça uma alma. Ela não se esquecia nunca.


O corpo dela caiu com um baque no chão.


Estava usando uma calcinha bonita.


ah não de novo não.


Sim. De novo sim.


E ela se esvaziou.


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