• Frentes Versos

Sobre o medo

\\ INFINITUDES

O que é medo?

Por Isabela Nunes


"O medo" (2017), Di Nicácio.

Acordei no meio da noite com a súbita realização de que eu não sei o que é medo. Minhas mãos suaram, o coração tremeu: sintomas de um medo irracional que havia ironicamente se apossado de mim. Se eu não sei o que é medo, como diabos vou combatê-lo? Percebi que digo todos os dias que tenho medo, tenho pesadelos sobre o medo, escuto canções sobre o medo, leio livros sobre medo, mas eu não sei o que é medo. O que é medo? Alguns dicionários definem como: estado emocional que surge em resposta à consciência de uma situação de eventual perigo. Outros como: ausência de coragem. É possível encontrar também: relativo ou pertencente à antiga Média, região da Ásia, atualmente parte do Irã.


Mas descrições formais do medo não são medo.


Medo é um substantivo masculino. Vem do latim metus, que significa “temor, inquietação, ansiedade”. Os sinônimos de medo são, em ordem alfabética: ansiedade apavoramento apreensão aversão covardia dúvida fobia fraqueza horror incerteza inquietação ojeriza pânico pavor preocupação receio susto temor terror. Mas sinônimos, etimologia e classificação do medo não são medo. Kierkegaard já definiu angústia, não sei se definiu medo: angústia é desejo do que se teme, temor do que se deseja. Mas a angústia está dentro do medo, angústia não é medo.


O que é medo?


Algum filósofo importante, tratando de um assunto igualmente importante, profundo, inefável e incompreensível pela mente humana, uma vez decidiu que, sendo impossível definir esse tal assunto importantíssimo, ele descreveria as coisas que o tangenciam. É uma mania dos filósofos essa coisa de se esquivar de definir as coisas quando elas se tornam difíceis. Heidegger escreveu um livro inteiro sobre o Ser, se propondo a descrevê-lo, e nunca definiu o que é Ser. Camus elencou vários exemplos de absurdo, exaltou o homem absurdo, falou de uma existência absurda, e nunca definiu o absurdo. Bem, se é possível escrever toda uma ontologia sem definir o que é Ser e fundar o absurdismo sem definir o que é absurdo, então talvez eu possa escrever alguns parágrafos sobre medo sem saber o que é medo.


Talvez eu possa resolver meu problema abordando-o tangencialmente.


Eu não sei o que é medo, mas sei algumas coisas sobre ele. Sei, por exemplo, que o medo é sempre pior do que a coisa que você tem medo em si. Um exemplo sobre o exemplo: Sartre dizia que a vertigem que sentimos no alto de uma ponte (ou prédio, ou abismo — lugares altos, no geral) não é propriamente medo de altura, mas medo de querer pular. Consideremos que você realmente pule (ou, se você não concorda com Sartre e acha que seu medo é realmente da altura e não de um desejo pseudosuicida de pular, que você caia). Mesmo que o pior cenário aconteça, mesmo que você realmente se espatife nas pedras e na água corrente do rio lá embaixo, tudo acabará tão rápido e provavelmente passará tão despercebido pela sua mente, porque ela estará tão atônita pela surpresa, que você quase não terá tempo para sentir nada, muito menos medo e dor. E, mesmo que você sinta dor, a dor que você cria na sua cabeça em antecipação é provavelmente muito pior do que a dor concreta e real. Mas esse é um exemplo drástico . Esqueça a ponte e a vertigem e a dor.


Eis outro exemplo, mais concreto e pessoal: eu me mudei para São Paulo depois de uma vida inteira no interior sem nunca ter pisado nesse antro de caos e, até agora, não me lembro de um momento na minha vida em que senti mais angústia (medo e desejo, lembra?) do que nos meses que antecederam minha mudança. Eu tinha medo de ficar completamente sozinha, de me sentir perdida, de ter muitas crises existenciais, de sentir muita saudade de casa. Não era um medo normal, mas um medo louco, irracional. Eu chorava pelo menos uma vez todos os dias. Alguns dias por horas seguidas. Meu estômago embrulhava, eu queria vomitar o tempo todo. Imagine a minha surpresa —  não, espanto —  quando cheguei em São Paulo e, de fato, tudo de que eu tinha medo aconteceu. Eu fiquei sozinha, perdida, em crise, com saudades de casa: uma menina ingênua, que não sabia e ainda não sabe nada do mundo, jogada nessa cidade enorme. Essa não foi a surpresa. A surpresa foi que tudo aconteceu como eu temia e não foi tão ruim. Não foi nada ruim, na verdade, porque eu descobri —  e fiquei chocada —  que eu conseguia lidar com tudo aquilo, que eu aguentava mais do que me julgava capaz. E, ao final de tudo, me senti em paz por ter enfrentado algo que me amedrontava tanto e não ter desistido (talvez um evento sem precedentes ou subsequentes na minha vida).


Mas outra coisa que eu sei sobre medo é que pouco importa que, na verdade, ele seja sempre pior na nossa cabeça do que na realidade, porque costumamos esquecer. Eu, pelo menos, esqueço com uma frequência assustadora. Não sou um exemplo melhor do que a vertigem de Sartre. Esqueça os exemplos.


Outra coisa que sei sobre o medo: os medos menores que estão contidos nele. Vou elencar alguns. Medo de amar; medo de não amar ninguém. Medo de não saber quem eu sou; de saber quem eu sou e não conseguir ser mais nada; de ser uma fraude; de ser menos que todos à minha volta. De sentir demais; de sentir de menos; de ficar louca; de ficar apática; de morrer sozinha. Medo de delegar todas as minhas escolhas aos outros; de ter que decidir tudo por mim mesma; de me perder. Medo de acordar um dia e tudo que aprendi ter sido um sonho; de voltar a ser nada; de nenhum sentimento meu ser real; de que eu não seja real; de inautenticidade. Medo de ficar estática. De me mover. Medo de não saber do que é que eu sinto medo; de que a angústia seja eterna; de que não seja possível mudar, afinal. Medo de estar condenada a ser assim pra sempre; de não aceitar nunca quem eu estou condenada a ser pra sempre. Medo de morrer; de viver mais um dia; de ficar trancada no meu quarto; de abrir a porta do meu quarto. Medo de ser incompreendida; de não ser vista; de ser vista demais; de ficar nua metaforicamente. De ficar opaca metaforicamente. Medo de ser burra. Medo de querer tanto que alguém me veja; de amar o amor mais do que eu amo indivíduos em si; de nunca me conectar de verdade com ninguém; de nunca conseguir ser honesta. Medo de começar a chorar e não parar mais; de chorar até vomitar; de não conseguir chorar. Medo de nunca ter certeza de nada; medo de que algum dia eu tenha certeza de tudo. Medo de que a minha memória não me deixe guardar momento nenhum. Medo do tempo. Medo da morte. Barulhos no escuro. Fogos de artifício. Medo de que eu goste um pouco demais da repetição como recurso estilístico na vida e nos textos. Medo do medo.


Outra coisa que eu sei sobre o medo é que ele nos consome. Na Odisseia, Ulisses se amarra a um mastro quando passa pelas sereias para ouvir seu canto e, ao mesmo tempo, não ceder a ele: é um episódio significativo, porque, ao dobrar as sereias, ao ouvir o canto e não se entregar, Ulisses se domina e se torna senhor de si. O medo é um canto de sereias do qual não é possível escapar. Ele faz com que vejamos tudo pela sua lente, se espalha como câncer, domina cada centímetro do nosso cérebro até que sintamos cada átomo fazendo contorcionismos impossíveis. Não há nenhum mastro real ou metafórico forte o bastante no qual possamos nos amarrar. O medo é o que nos impede de nos dominarmos e sermos senhores de nós mesmos. A tristeza, eu dobro; a felicidade, quando preciso, eu contenho; a vergonha, eu combato. Mas o medo, como disse Kierkegaard, está intimamente relacionado ao desejo. Outra coisa que sei sobre o medo: ele sempre me impediu de fazer tudo que já quis na vida. Tudo que quero, eu temo com a mesma intensidade. É parte do que torna a prática do conceito amor tão difícil pra mim: não consigo correr na direção de algo e fugir ao mesmo tempo, então fico parada. É o que me faz planejar viagens detalhadamente e arrumar uma desculpa para não ir de última hora, mesmo podendo ir; é o que me faz nunca terminar plano ou projeto nenhum. Do mesmo modo, tudo que me assusta me fascina. É o que me faz olhar para baixo, para o rio corrente, ao cruzar a ponte alta; o que me faz espiar as partes de susto nos filmes de terror por entre os dedos que tampam meu rosto; o que me faz imaginar e secretamente desejar que coisas ruins aconteçam comigo, mesmo que eu saiba, racionalmente, que aquilo é ruim. Então: como domar medo e desejo, se eles estão entrelaçados? A resposta é: não se doma, se afoga, como Ulisses se afogaria se cedesse ao canto das sereias. Eis a angústia: se afogar.


Alguns sinônimos de medo são, na verdade, sintomas do medo: ansiedade apavoramento apreensão aversão covardia dúvida fobia fraqueza horror incerteza inquietação ojeriza pânico pavor preocupação receio susto temor terror. Outros sintomas são: mãos suadas, coração tremendo, estômago embrulhado, inquietação, garganta fechada, silêncio, subitamente voltar atrás em decisões, acender as luzes pela casa, insônia, escrever textos sobre medo.


Sei muitas coisas sobre o medo, mas não estou nenhum pouco mais perto de saber o que é medo. Como resolver meu problema e dormir à noite, então? Como combater o medo? Não pensar sobre ele? Ler artigos científicos? Estudá-lo formalmente? Não sei.


Mas talvez escrever sobre ele seja um bom começo. Uma coisa que sei não sobre o medo, mas sobre palavras, é que elas têm poder. Alguns clichés só são clichés porque são tão obviamente reais, e esse é um deles. Quando você diz “eu prometo”, por exemplo, o próprio ato de dizer já é a ação de prometer —  dizer “eu prometo” muda alguma coisa no mundo, cria algo que não estava ali antes: uma promessa. Há outros exemplos, como o “eu aceito” em um casamento ou o “eu declaro o réu culpado” de um juiz, mas, para além da linguística, eu me pergunto se todas as palavras funcionam assim, se sempre dizer algo é, além de dizer, também fazer algo, se isso sempre traz consigo um poder. Um poder sutil, psicológico, meio que placeborístico. Um poder de atração. David Foster Wallace disse, uma vez, em Graça Infinita: "por favor, entenda a pragmática da manifestação do medo: às vezes palavras que parecem exprimir na verdade invocam".


Se dizer algo é ao mesmo tempo fazer algo, e se palavras realmente têm esse encanto invocatório, eu gostaria de tentar uma coisa. Uma solução provisória, pelo menos para que eu possa dormir hoje sem mãos suadas e coração tremendo: mentir.


Veja bem, na verdade, eu não tenho medo. Todos os medos que elenquei ali em cima? Falsos: eu não tenho medo. Medo? Não, não me soa familiar. Sou mais forte que Hércules, mais heroica que Aquiles, mais corajosa que Prometeu. Sou Diana com seu arco, sou Atena que nasce já pronta para ir à luta. Eu não tenho medo de nada. Eu sou invencível.


Quanto ao que é medo, me parece que o dicionário Michaelis tenha acertado em sua definição. Medo é: relativo ou pertencente à antiga Média, região da Ásia, atualmente parte do Irã.

©2019 por Frente & Versos. Criado com Wix.com