• Bruno Pernambuco

Sobre o Visto

\\ CINEMA

Os detalhes comandam alterações da percepção do olhar, que se quebra em diferentes cores em cada objeto que é observado.

Por Bruno Pernambuco

[Em comemoração aos 75 de Wim Wenders, o serviço Belas Artes à la Carte disponibiliza, a partir de 13 de agosto, clássicos da filmografia do diretor. Frentes Versos acompanha os lançamentos semanais do especial.]


Cena "Asas do Desejo" (1987), de Wim Wenders.

Hesito em lembrar. A hesitação da memória é um caminho circular que registra o lapso de cada pegada na terra - mais avançando na trilha em caracol é mais profundamente se perder. Cada sinal, cada registro desse caminho é do mais absoluto contraditório. Cada indicação será uma: a melhor descrever o nada, a que mais precisamente inventa uma chegada. Esse paradoxo é a linguagem que inventa o outro. A linguagem que observa, descreve, a que denota as características, a que pode dizer a respeito de. Nessa simplicidade elementar das conjunções está criada a distância, está criado o frio, a ausência de cor, o avesso, o negativo da foto de si mesmo, visto melhor que a imagem original, e imprimido no olhar vigilante.


Dedilho um caminho que sei de cor. Os detalhes comandam alterações da percepção do olhar, que se quebra em diferentes cores em cada objeto que é observado. Os sentimentos, também, cada um refrata-se em muitos. Olhar a fundo um outro olhar é perceber as nuances dessa construção dos tons, os traços de tristeza com que se compõe a alegria, as notas de fundo que falam intensamente em cada cor. É a expressão total da vida, no instante, em cada coisa, que além da explosão, da inteireza de tudo aquilo que se projeta, tem em si o tempo da sua remissão. É um aprendizado enxergar o mundo, em sua completude, insistentemente presente, enxergar e adaptar-se à dualidade das palavras, à pronúncia, à intenção, à magia que é de através das palavras recriar e inventar uma sensação.


O traçado do mapa carrega consigo as incongruências de todos os signos da cidade. Uma evocação sutil de Rilke persiste nos anjos que se espalham por todos os cantos, e que para ver-nos, a nós, se adaptam a outras formas. O prosseguimento dos olhares é constantemente interrompido, de uma linha de visão se passa a outra, se troca, as vigilâncias confundem-se. As vozes confundem-se, mais dissonantes e simultaneamente mais átonas, embaralhando a clareza sublime do pensamento em preto e branco.


O muro nos ocupa, nos coloniza, é fato, as guardas armadas também cercam o pensamento, guardam, delimitam, e sob o olhar violentam a vida até encaixá-la em definições absolutas. Mas, se não fosse pelo muro, não poderia existir sua queda. A mudança nasce precisa e quieta. E lenta. Feito uma única gota a atravessar a parede, que é o mesmo que toda a água contida que violentamente sob pressão explode contra o dique e faz rachar as camadas fortificadas do recinto. Uma lembrança me veste como se fosse uma nova pele, subjacente à minha própria, que um dia será trocada, e antes de ser inteiramente a minha nova já se mostrará através das rugas e das rachaduras do velho.

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