• Bruno Pernambuco

Sonata de Inverno

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Outra vez se enche de esperança o meu coração enquanto o verão cansado de novo se retira ao casulo infernal.

Por Bruno Pernambuco


Todo coração tropical pede um pouco de neve. Há, certamente, uma boa necessidade de compensação por tudo que as quentes individualidades, e individualismos, sub-equatoriais deixam de lado- e, afinal, uma parte da própria humanidade é amputada se recusa-se o encontro com essa parte gélida da psique que é tão cara à lírica nórdica. Esses ventos estrangeiros, se bem recebidos, podem, assim, chegar ao leitor brasileiro como um presente raro. Talvez como um espelho carregado de más notícias, mas, por essa natureza, cheio de fulgor; aquele que, do fundo da feiúra de sua imagem, faz lembrar a alegria que tem, na tristeza, a esperança. Ou então como as horas que no relógio se aproximam sem nunca chegar, deixando os minutos que vem-e-vão todos, exceto aquele esperado, em que a voz sairia de dentro da boca e teria nascido o seu som. O peso do encontro a aproximar tinge toda a espera. A alma agarra-se à mão sombria que a envolve. Dessas gotas negras de uma chuva de piche que molham o coração é feita a poesia de Tomas Tranströmer.




Neste vasto universo, a poesia de Trasnströmer se assemelha à geleira em movimento: desloca-se, aproxima-se e afasta-se, rodeia o sentimento e nada por suas imediações






Vale no Inverno, Lynn Baker


O leitor que aos poucos adentra em suas letras anda por um caminho de fogos-fátuos, especialmente nos imagéticos haiku de sua obra posterior, que, a partir do derrame sofrido pelo poeta, traduzem uma nova relação com a palavra. São essas imagens duradouras e, ao mesmo tempo, fugidias que imprimem seu negativo numa memória que é sensorial, além da simples intelecção. Uma viagem por esses poemas, qualquer que seja o trajeto, combina o impacto da mensagem trazida por uma voz pesada, tocada em uma escala grave, com interlúdios em allegro, em que a música das palavras evoca uma aparição que rapidamente desfaz-se no ar, retornando à sua inexistência. A concisão dos poemas Haiku deixa cortes precisos na alma, que se alarga ao aceitar o convite daquele mundo. Essas imagens são vistas apenas por acidente. A luz não as procura, apenas as encontra enquanto frenética busca um tempo que degela após ao horizonte. Essa luz é triste, mas traz a calma do tempo que anseja.




A história familiar, em Mares do Leste, ou a morte de Wagner- tal qual reimaginada por Liszt- em Gôndola Lúgubre, são transformadas,

sujeitadas a uma beleza narrativa que nasce da precisão da imagem lapidada, essa em que se realiza uma


beleza paradoxal: as histórias tornam-se mais vivas aos sentidos, à imaginação tanto intelectual quanto tátil, quanto mais se misturam às reflexões e memórias do poeta.


Cena de Neve em Argenteuil, Claude Monet



Outra vez se enche de esperança o meu coração enquanto o verão cansado de novo se retira ao casulo infernal. A lágrima se petrifica em diamante, no céu lua nova faz tremular a lembrança da falta; essa que agora abraço e com a qual no escuro danço a esperar um outro regresso; um pedaço de pano abandonado, ou semente esquecida pela primavera. Uma história nova chegando no brilho dos olhos.


Imagem de capa: Paisagem invernal, Vincent van Gogh


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