• Bruno Pernambuco

Sonetilheto do Falso

\\ TERCEIRO SINAL

É feio chulo indigno nojento e impaciente, mas é um amor.

Por Bruno Pernambuco

O flagrante delitro no depósito de vinho do Abel. Imagem: Domínio público.

Eu me lembro - tão somente, sem que tenha alguma imagem específica de que me lembrar. Lembro de enxergar a cor, lembro de ver as mãos pálidas, de sentir o papel diante do mundo. Me lembro de desinfetar a casa de N. e limpar o armário velho de medalhas. Me lembro de uma viagem e da discussão dos pescadores, ao lado da jangada: um temia o mar, as ondas altas, e a tempestade que nascia no fundo do horizonte.


O outro temia a ilha.


Me lembro de uma mudança, de uma troca e de uma notícia boa. Me lembro de uma bola branca de sorvete de leite e do reflexo dos olhos nas diferentes cores da gelatina. Me lembro de um quarto de pensão, e o tempo já rateado, onde se dava pra ver umas vidas tristes, que desapareciam num cheiro de cigarro. Cada janela me lembra de um olhar. Me lembro de uma notícia perdida. Me lembro de uma mancha de café crescendo sobre a capa do jornal. Me lembro dos livros na caixa, deixados inválidos depois da infiltração. Me lembro de enxergar um rosto numa mancha de água na parede. Me lembro de uma espera ansiosa que deu em nada. Me lembro de um título que intrigava a cada visita à livraria. Me lembro de uma lembrança distante. Me lembro de uma fantasia que não aconteceu, e nela um poema que narrava o dia que não aconteceu. Nenhuma lembrança me é realmente minha — em primeiro lugar por não serem minhas totalmente, e delas eu ser, de fato, bem menos do que são os outros coautores. Depois disso por, sendo as histórias que aconteceram com outros, serem tão irremediavelmente pouco para o que eu sinto.

É a mesma coisa, e as lembranças são ainda as mesmas. Mas eu me agito, eu me contorço, revolvo, erro e depois volto ao mesmo lugar. Cada fragmento me dá o costume de todos os suicídios do mundo, mas existe um amor, novo e novo, e aqui, que irremediavelmente nasceu. É dela que eu não sinto mais que a pressão tão sutil dos dedos caminhando por cima dos meus, deixando aquela cada minúcia dos ensinamentos. É feio chulo indigno nojento e impaciente, mas é um amor. É um feixe que insistentemente insiste em nascer, entre a escuridão abafada. É um pouco de pó deixado em cada livro e também no fundo dos olhos. É uma certeza na verdade que eu minto.

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