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Tempo de caqui

\\ CRÔNICAS

E aquela cena poética pode ter salvado o meu dia. Porque não é todo dia que a gente se salva sozinho.

Por Sibélia Zanon*, colaboração para Frentes Versos


Atemoias frescas do ano passado. Foto do jardim da autora.



É tempo de caqui. A fruta de um vermelho que ainda não é. Rastro de outonos tombados em folhas. Anúncio de invernos intimidados pela intensidade da colheita. Quando aberto – dispense a faca e sinta a fruta se deixar rasgar com a pressão dos dedos - ele se revela desenhado em ranhuras e a textura gelatinosa reluz a carne.


É tempo de caqui. E isso me lembra de um tempo em que pessoas de narizes livres cheiravam frutas pelo mercado. Foi numa quarta que um homem pegou uma fruta na pilha das atemoias. Não sei se ele era dessas bandas. Mas, aquela parecia ser a sua primeira vez. Dedos exploravam as escamas. E o nariz tentava perscrutar o interior. Naquele momento, ele estava ali, inteiro com aquela atemoia. Tempos de narizes livres aqueles... E aquela cena poética pode ter salvado o meu dia. Porque não é todo dia que a gente se salva sozinho.


Foi num outro mercadão que o vendedor de farinha de mandioca encarou a mim e a minha irmã e arriscou:


- E como vai painho? E mainha?


Éramos completos desconhecidos, mas acreditei que seria possível abraçá-lo de imediato se painho ou mainha não estivessem bem. Os seus fios brancos e rarefeitos testemunhavam um entendimento sobre a maturação dos frutos. E a farinha de mandioca escorria feito música ancestral para dentro do saquinho pardo de papel, que logo seria meu.


Depois, na feira aberta, com o sol mirando o pico das ideias, perguntei:


- O que se faz com isso?


O legume, partido e agigantado, se empilhava sobre a mesa de madeira sem o pudor dos filmes plásticos. Eu já tinha visto inhame e já tinha comido cará, mas aquilo era uma abundancia descarada. Os dois feirantes olharam divertidos um para o outro e até hoje não sei se perguntei algo indevido. Talvez o inhame ou cará – já tive muitas discussões acaloradas sobre quem é quem e para mim aquilo que vi continua sendo um bando de carás, mas prefiro não entrar nesse debate de novo, há coisas que não merecem ser discutidas porque há muito calor envolvido e a ciência não dá conta de tanta paixão – tenha simbologias e valores desconhecidos meus.


- A gente faz cozido. – Respondeu um deles.


É tempo de caqui. E a carne vermelha, ora me alegra, ora me assusta. Tudo é um susto. O susto da beleza e da vida em gomos. Que se come pela metade e não mais inteira. Porque o tato foi coibido e o cheiro foi suspenso. Não sei o que Patrick Süskind pensa da vida cerceada de perfume. Ele não dá entrevistas e por isso continuo sem saber. São tantas as coisas que ainda não sei.


A maciez ou textura da vida foram contidas. Agora espreita o medo de sentir. Vermelho do vir a ser. Como um outono que se atrasa pelo horizonte invernoso e o mundo fica faminto de primavera. Os sentidos encroados num tempo de caqui.


- Mainha e painho vão bem sim, obrigada!


Por prevenção, evitamos o cheiro da nuca. Coibimos o abraço. E esse vermelho-caqui que se estende pelo horizonte do céu invernal parece fermentar alguma coisa que a gente ainda não vê. Se já perdemos um tanto do olfato e outro tanto do tato, espero que a visão melhore. Dizem que a ausência de um sentido colabora com o aperfeiçoamento dos outros. Na fermentação dos corpos outonais, alguma coisa tem de azedar para qualquer coisa outra nascer. É tempo.


* É jornalista e pós-graduada em jornalismo literário pela Associação Brasileira de Jornalismo Literário (ABJL).

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