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"Tempo (Iroko)" e outros poemas*

\\ POEMÁRIO


Por Vitor Resquin**, colaboração para Frentes Versos



"Jaguari" (1941), de Iberê Camargo.

Tempo(Iroko)


Lavar os pés do Tempo

e se recolher à margem de sua cama,


deita o arrebol junto ao corpo,

salgado no rosto.

Banzo


São dois rios intransponíveis,

coisa que paira e bruma acumula.


A pressa ainda é menina e disfarça dor,

beijos em velame-do-campo,

mil estrelas, ainda, banzam meu amor.

Cobra rasteira


O rio serpenteia as várzeas,

sobre mim, os braços do meu bem.


Em movimento sanfonado,

toda distância é mínima,

todo caminho circular.


É de talho no peito:

vereda tropical.

Logunéde


Em leque, as penas do pavão

enfeitam as florestas de arroubos

no peito do caçador.


Ornando o percurso que se fez o rio,

são de mel, os sonhos de Logunedé.

Febre


Rumor do vento no pomar

e o olhar do cão ao prado,


a noite tinge de preto as folhas dos laranjais.


A pele da terra

e o sal escorrendo no rosto,

de macambúzio sentimento,

eu sou minha própria febre.

Espelho enterrado


Vertigens dos trópicos e a febril América Latina.

Mariposas dos sonhos cintilam ao redor do candeeiro à procura de calor.

Corpos mestiços, terra sangrada.


Rastos de meu avô Guarani

– Espelho enterrado, empoeirado, um retrato 3x4.


Ao fundo, uma Gameleira-branca alteia o vestido de minha avó.

E o Paraguai nunca esteve tão perto das mãos

– ou, talvez, tão longe.


A mão que me afaga a pele:

“duerme, duerme, negrito

que tu mamá está en el campo.”

Galgada a fronteira, o chão borbulha, meu corpo ferve.


*Todos os poemas acima fazem parte de Árido.

**Vitor Resquin, poeta, angoleiro e educador. De Embu das Artes a São Paulo, a infância. Filho de um casal da zona leste paulistana: do pai, a maldição do samba; da mãe, o terreiro; da vida, a capoeira. Autor de Naufragar como Verbo (2017, Editora Reformatório) e sua mais recente publicação Árido (2020, Editora Penalux), ambos livros de poesia.


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