• Matheus Lopes Quirino

Terra da mentira

\\ CADERNO DE ANOTAÇÕES

Ouvi pela primeira vez o termo “de Taubaté” na fila que virava a esquina do extinto Bar Secreto, na rua Álvaro Anes, enquanto esperava para entrar.

Por Matheus Lopes Quirino


Ilustração de Ligia Zilbersztejn.

No umbigo do Vale do Paraíba, interior de São Paulo, Taubaté poderia até ser a pedra no meio de algum caminho, mas na maioria dos casos não é. Ponto de descanso estratégico para quem sai de São Paulo em direção ao Rio de Janeiro, a cidade comemora, neste ano, 380 anos de seu marco zero. Desbravada pelo bandeirante Jacques Felix, sob às ordens da Condessa de Vimieiro, séculos depois aclimataram-se aqui personagens antológicos da literatura infantil nacional, como o Visconde de Sabugosa, a Cuca, Narizinho, a boneca Emília e a lendária Tia Anastácia.


Ao falar nela, nos últimos anos a personagem mucama criada por Monteiro Lobato ganhou todos os holofotes possíveis. Amálgama de um debate acalorado não só na literatura, como na política e, principalmente, na militância, a tia Anastácia foi trending topic do Twitter, seu nome foi parar na boca do povo, de gente que, se quer, lera uma história do Sítio do Pica Pau Amarelo. Neste século, em que discussões se desenrolam nas redes sociais, tia Anastácia virou alvo também de algozes dos algozes de Lobato. Foi xingada de comunista (contém ironia) e, como funcionária do Sítio do Pica Pau Amarelo, teve seus direitos discutidos. Ela era claramente escravizada pela dona Benta, a detentora de toda vilania que, como bode expiatório, recai sob a Cuca.


A Cuca também tem lá seus méritos. Jacaroa, independente, temida pelos bichos da mata em que habita, a vilã da turma de Monteiro Lobato pode ser considerada uma feminista clássica. “Ela dá as ordens, ela é respeitada, a Cuca é o símbolo do empoderamento”, escutei em outros tempos, naqueles em que se podia sair por Taubaté e caminhar pelas ruas da cidade até o Sítio do Pica Pau Amarelo, por exemplo. E não é exagero. Taubaté é uma cidade de cidadãos ilustres, cujo dialeto próprio é não só rico lexicalmente como bonito de se ouvir.


Na boca do taubateano, nome que se dá ao munícipe que aqui nasceu, o peruzinho é carrinho de mão. Descobri isso da maneira mais politicamente incorreta possível. De ouvidos na vizinhança, no alto de meus onze anos, eis que um vizinho saiu gritando a outro no portão deste: “Gaúcho, me dá seu peruzinho rapidinho?”. Não é gozação. Naquela época, recém-chegado de São Paulo, tive dificuldades a entender essa e outras expressões populares, principalmente depois de ver a reação da companheira do gaúcho, que também era forasteira, ao pedido do nosso vizinho de esquina. Aqui, o pão francês se pronuncia pándesarr, cadela é cachôrra, com acento circunflexo na letra o. Se você obtém sucesso em alguma trama, diz armô, se ganha dinheiro com isso, ganha crucru: geralmente a entonação vem acompanhada de muito entusiasmo.


Taubaté parece uma cidade de mentira, embora seja da mentira. E não é por conta das lendas urbanas que aqui, no passado, mexiam com a criançada, como o lobisomem ou a mula sem cabeça. A alcunha foi recebida de algum fórum da internet em 2012, quando uma figura de proporção agigantada ganhou expressão nacional pelo noticiário por sua história (e seu tamanho): era a grávida de Taubaté! Uma lenda contemporânea, dizem os criadores de conteúdo humorísticos de hoje, os memes. A grávida de Taubaté, em força de expressão, ultrapassou até a clássica personagem de Luís Fernando Veríssimo, a velhinha de Taubaté, outra paixão nacional da época em que os memes, que hoje abarrotam a internet, eram simplesmente piadas ou seriam assim chamados décadas depois.


A pedagoga Maria Verônica Aparecida César Santos é a verdadeira identidade da grávida de Taubaté. Em 2012, ela ocupou o centro da roda da rede Record, no programa Hoje em Dia, ao anunciar uma gravidez de quadrigêmeos. Gestação complicada e rara, garantiam os especialistas, mas, em seu caso, o fato que capturou olhares atentos do público foi a barriga. Uma obsessão nacional circundada no ventre daquela mulher, ela orbitava ao redor da fama com aquela barriga digna de globo, embora tenha sido a Record a responsável por seus cinco minutos de fama. À época, até a equipe do The Piauí Herald entrou na brincadeira, quando noticiaram que, além da farsa que fez o cozinheiro Edu Guedes chorar ao vivo, ela também escondia na barriga, sob os vestidos compridos, quatro pré-candidatos tucanos à prefeitura de São Paulo.


Mas a farsa acabou. Maria Verônica teve que devolver todo o enxoval à Record e acabou respondendo a um processo de estelionato pelo Ministério Público. Depois disso ela sumiu, pintou o cabelo de loiro, virou pastora e trabalhava em uma loja de bugigangas. Em Taubaté, nunca conheci ninguém que a conhecesse, tampouco a vi pelas ruas da cidade. Nos anos seguintes, minha segunda terra natal ficou marcada pela história bizarra não só no Brasil, mas também nos lugares que o brasileiro habita fora daqui. “De Taubaté”, então, virou sinônimo de mentira, falcatrua, sandice, falsidade, entre outros pejorativos.


Era meu primeiro ano na faculdade de jornalismo na PUC, quando fui levado por uns amigos a uma boate gay no bairro de Pinheiros. Ouvi pela primeira vez o termo “de Taubaté” na fila que virava a esquina do extinto Bar Secreto, na rua Álvaro Anes, enquanto esperava para entrar. Os ouvidos ficaram atentos à gíria que, durante a noite (e pelo resto da vida), escutaria da boca de jovens da minha idade à exaustão. “Ah, boy lixo o Fulano, convencido, todo marombado aquele ‘de Taubaté’”, captava de algum canto do lugar num breve momento de lucidez. Perguntei a uma amiga o que significava, e ali estava a minha cidade reduzida a um meme.


Cidadãos ilustres fazem parte do imaginário do taubateano raiz, como o ator Amácio Mazzaropi, que nasceu em São Paulo, mas foi nesta terra que ele deu vida a seu personagem mais icônico, o Jeca Tatu, uma sátira divertidíssima do caipira. Seus filmes levaram Taubaté aos televisores no século passado, trazendo à cidade um certo brio. Mazzaropi entrou para os anais da cultura popular do Brasil, sendo objeto de estudos, pesquisas e personagem de livros e tratados acadêmicos de primeira importância.


Assim como Lobato e Mazzaropi, Hebe Camargo, a rainha da televisão, e Cid Moreira, ‘a voz de Deus’, são cidadãos ilustres dessas bandas. Em tempos de Coronavírus, a epidemia que, segundo um tweet, era grave (‘Não é de Taubaté!’, ipsis litteris), alertava um conterrâneo, deixou a cidade em alerta e tornou inviável o turismo literário infantil, que tem certo peso na cidade. Capital Nacional da Literatura Infantil, Taubaté, pela primeira vez fechou suas portas do Sítio do Pica Pau Amarelo, desde 1958, seu ano de fundação.


Dias tristes pairam o “país’ Taubaté. Terra da mentira, o cidadão que aqui vive e que daqui nunca saiu, no começo da pandemia, desacreditado, agora só sai à rua mascarado. Aos poucos, a cidade que delegou mais de setenta por cento de seus votos ao capitão Jair Bolsonaro parece incrivelmente cair na real, percebendo a gravidade da mentira por este personagem folclórico que vem governando o país. De olhos tristes, o taubateano idoso, esse personagem icônico da velha guarda, confessa-se impotente, ao mesmo tempo em que se diz arrependido por não poder mais sorrir como um Jeca.

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