• André Vieira

Tive cárie no dia internacional do chocolate

\\ CRÔNICAS

Com a abstinência das drogas — diga-se de passagem, lícitas e pouco atraentes longe das más companhias — e do sexo pingado pelo café fraco, a substituição brusca por lazeres lânguidos se tornava quase absoluta

Por André Viera


Le Roi Sans-Dents, Vincent Richeux.


A cada seis meses, entre a Paulista e a Joaquim Eugênio de Lima, eu revivia aquela mesma dor, contando o tempo pelo rolar de olhos em capas desgastadas e livros infantis, contemplando fúnebres quadros de mau gosto, respigando tintas noventistas em paredes sem cor que derretiam a alma e taquicardiavam o peito em polvoroso. Seria hoje. Em instantes, chiados e guinchados, foices e navalhas, espelhos e brocas, seringas e anestésicos, visões de estrelas e sofrência desmedida estourando a mil no rádio a pilha, que só pegava Gazeta, invadiriam minha boca inerte pelas mãos alheias e o descontentamento materno, sempre próximo do esfregar miniatura de cerdas duras e o enrolar retrátil de fio longos nos dedos: “quem é o porco da vez?”, bradava meu algoz da sala de tortura com vista para a avenida de arranha-céus e perfilados helicópteros. Só se encontra pureza quando se está mais próximo do céu.


Principalmente quando se exagerava nas últimas provas do semestre e no acúmulo de coisas da casa-trabalho-família-de-seis-a-três-quatros, fazendo com que a higiene bucal, pra não dizer nunca, ficasse pros últimos planos, sempre pra depois do despertar matinal pós-inferninho ou da bolacha de coco milagrosa, que servida com leite quente e chá de menta, arrebatava a insônia sobre as olheiras férreas e a ansiedade ênea que brilhavam madrugada adentro até serem refreadas pelo lanche noturno. Fosse no descanso eterno do travesseiro de chumbo ou no consolo autoimposto de olhar as luzes da janela até desabar com a chegada da aurora, o sono só vinha amarrado junto dos pormenores do glúten; imagine então pros tempos de pandemia!


Com a abstinência das drogas — diga-se de passagem, lícitas e pouco atraentes longe das más companhias — e do sexo pingado pelo café fraco, a substituição brusca por lazeres lânguidos, caminhadas sofríveis, refeições açucaradas e pipocas micro-ondas amanteigadas pelo sal rosa e pelas pimentas do reino — invenção de expatriado fluminense em planalto paulista, óbvio — se tornava quase absoluta, realçando ainda mais o humor e a moral lá-em-baixo, que nunca foram dignos de alta, verdade seja dita, mas que nessas circunstâncias tomavam contornos cinzas de tédio e borrões azuis de ansiedade. Assim, com pérolas fluorídricas em banho-maria de Nutella, espuma branca de Coca-Cola e amalgamadas no pão de fermentação caseira, mais nova invenção gruda-dente do paulista chão de talco, quem é acusaria o desastre?


Qual não foi, então, a surpresa da cirurgiã ao avistar o osso nu, roto e torto, dente descalcificado pela falta de cuidados permanentes e os excessos dos derivados do leite. Na cadeira que viu minha infância passar e maioridade florescer, mamãe empalecia: vinte e cinco anos depois, seu primeiro, seu querido, seu intocável tinha se tornando grande demais pro babador de Pikachu e pros lenços Mickey & Minnie, pra pasta tutti-frutti e pro flúor babalu, pros bonecos MaxSteel e pras idas vistosas ao Súbito do Conjunto Nacional à procura de um polpetone — que já foi “pro vinagre”, como a dentista diz, há tempos. Hoje, duas décadas e meia depois, um peito coberto por pelos, um rosto cravejado por espinhas e uma cabeça habitada pelo vento, o tratamento efetivo contra teimosia e boca inchada por aventuras glicogênicas recomentava-se o clássico ferro contra ferro, osso contra o osso, injeções a tira-gosto e uma broca afiada no meio do buraco pra aparar os excessos descuidados.


Mas a decepção maior só vem depois do conformismo: tive cárie no dia internacional do chocolate; anunciava a data o locutor-maestro da sofrência sertaneja, enquanto oferecia cinquenta mixarias e dois cupons de lanches pra quem ligasse à rádio à procura dos hambúrgueres de rodelas douradas. “Meu terceiro molar também tem cheiro de bacon”, pensava comigo enquanto a bronca desgastava o osso e perfumava o ambiente clínico com o sabor de méquinífico: nunca desejei tanto uma porção grande de fritas.


É, pois é minha estrela, em casa de ferreiro, o espeto é de pau. Quem diria que depois do molde, da sola, e do revestimento temporário-permanente de massinha endurecida na saliva e no hálito, ainda me daria vontade de comer bife acebolado com shoyo? Pois é, mamãe, velhos hábitos não mudam mesmo: nem à mesa, nem na pia em frente ao espelho.


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