• Bruno Pernambuco

Todas as Horas pro Fim

\\ TEATRO

Os diferentes cômodos são como diferentes antessalas, que antecedem sem chegar à memória.

Por Bruno Pernambuco

Cena de Desconscerto (Fotografia: Marcelo Hermes).

Os poucos poemas sobram num papel marcado pela velhice, pelo cheiro de gim que o hálito deixou, e pelo cheiro de cigarro, quando as mãos seguraram trêmulas… São o retrato oblíquo de alguém — não é o nosso, a não ser, talvez, naqueles momentos em que um versinho alegre começa a bater, com uma urgência que parece ser toda a urgência do mundo, e...

São aqueles momentos em que o coração está miúdo. Momentos da paciência do orvalho. Esperamos por um dia puro, claro e retilíneo que fosse especialmente feito para o amor. Esperamos que alguém deite na grama, de alma e pés descalços, e que a tempestade que passou dentro de nós ainda esteja viva, mas apenas num sabor enigmático e contraditório, de chegada da primavera sem nenhuma flor e sem nenhuma morte. As esperas escuras, que o orvalho conhece também, não têm forma, a não ser quando se escuta a garoa que cai tão incessante e graciosa que parece que o céu escreve à máquina. Ler o seu texto é aprofundar-se certamente nesses costumes da vida - vez ou outra se enxerga a cena de fora, e se tem uma vaga impressão que talvez Chopin tenha dito algo a esse respeito. Ler o seu texto é se lembrar de um vestido azul, e de uma terra tão absolutamente marrom, onde parecia que se dava pra ouvir todos os silêncios do mundo…


Assisto a um concerto que teve de ser transfigurado, requebrantado. Observo as novas harmonias assimétricas que ele se impõe. As paredes deixam aquele que assiste confortavelmente preso àquele labirinto que lhe cabe. A mesma indefinição cresce morna, como um pequeno ramo que viceja, nessa certeza geométrica tão segura. Quanto mais o olhar aproxima-se decididamente da câmera, mais a casa vem, também, acossar-nos; talvez não se possa mesmo ser mais que um anjo de Klee- fatalmente empurrado ao futuro por aquele passado que fita tão docemente…


Os diferentes cômodos são como diferentes antessalas, que antecedem sem chegar à memória. Dela só conhecem os rastros mais vagos, e nós igualmente. Sabemos, é fato, pouco mais do que isso a respeito da nossa própria memória. Só vemos, afinal, aquilo que está aqui. Tudo aquilo que vemos nos pertence, mas somos, também, aquilo que não é nosso - uma distância que ficou a nos dar a mão, um poema que ficou para nós como condenação, e com o qual seria um martírio não estar… Delibero-me enfim: eu sou o meu agora. Isso me alegra Os sentimentos estão organizados em um adagietto de composição perfeita. A noite brada com a voz de um cachorro. A meia-luz a mostra no contrapé de si mesma. O enigma continua a indecidir-se. Um copo vazio e um copo com gim conversam. A vida segue. A água decantada em palavra ou em joia refrata em si um horizonte esperançoso e amarelo. E a noite continua a crescer por trás dos sorrisos mais serenos.


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[Assista aqui à Desconscerto, adaptação por Matheus Nachtergaele de seu espetáculo Processo de Conscerto do Desejo]

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