• Bruno Pernambuco

Três Poemas

\\ POEMÁRIO


Por Bruno Pernambuco


Noturno com igreja

Noite nasceu outra vez.

Anunciada nos sinos,

chegou pequena pra caber o seu silêncio.

Noite assozinhou escura,

mulherou esquecida pelos sonhos.

Escura deitou a sua sombra

sobre o dia e os seres e o que devia ter sido.



Pise com cuidado, que é pra não acordá-los.


Agora, me mantém firme onde eu estou

o peso do ouro, que derrama do céu,

o peso da vida, que emana do chão.

E o peso da noite, que está em volta de tudo.



Olha o menino Jesus, sozinho

Olha o menino Jesus, calado

Olha o menino Jesus, coitado

Olha o menino Jesus, menino.



Amanhã, o sol novamente

desfila maravilha ouritintas.

os santos santificam abertamente

as feiúras retornam à sua harmonia.

Hoje é escuro.


Hoje é escuro

e na última sala, esquecida, velas derretem a escuridão.




Dois Retratos

Na foto, parece pacífico.

Na foto parece indolor.



(A corte desfilava pela família.

Nas fotos e nas parcas lembranças

os olhos cheios de orgulho

os lábios cheios de orgulho

lembrando da corte que desfilava pela família.)


As notas lhe dão nome de mártir.

Lamentam as circunstâncias

deixam uma triste lição.


Nalgum lugar lhe chamam de santa.


O véu veste bem o brilho que ficou dentro dos olhos.

O nome combina com o cheiro deixado nas flores.

Mas na foto nenhuma morte é apagada.


Mafalda de Savóia

noite após noite salva dos reais pesadelos

por seu encantado prinz von Deustchland Filipe II.

Quanto a isso, só se sabe que trovejava na noite por trás da cena.


II


Talvez, na vida de Mafalda de Savóia,

a imaginária,

os primos tios irmãos não fossem tantos

e se envolvessem com disputas mais sérias.

Talvez no meio-dia ela não confeitasse doces sobre a bancada de mármore

pensando que as crianças já chegavam da escola

ou que L. se atrasou para a aula.

Ou no vestido que N. nunca devolveu

no emprego que V. perdeu

na morte do marido de H.

pensando…


Atrás da escrivaninha

entre os papéis vovô não tem tempo para tolices.

É todo ouvidos para a canção de ninar.

Devagar, devagar, definitivamente

não sabe não ser Filipe, príncipe da Alemanha





Dessemelhanças

Última nota não tenho de uma emoção

que nasce no silêncio até morrer

em paz de folha seca

dançando no tropeço de amar.


Me falta a última palavra de um poema que acontece

no intervalo entre o sal dos olhos

e o instante do mar.

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