• Matheus Lopes Quirino

Truques de paquera

\\ ENTREVERES

Se desfazer de um livro não é fácil, ainda mais quando se trata de um romance do calibre da Paixão Segundo G.H

Por Matheus Lopes Quirino


Da calçada, como de costume, não é raro ver aquele amontoado de best-sellers eróticos dos anos 1990, todos surrados e ocres, com capas esgarçadas e marcadas por  miúdas dobradiças, por vezes danificadas, mas nem por isso menos atraentes, pois a plaquinha marca “dois reais”; é tentador, ainda mais quando um tijolinho deste calibre leva o lumiê tipográfico sagaz, com serifas arrojadas, do tipo: “Jéssica K.L., best-seller da Harper Collins apresenta com requintes de prazer e sacanagem…”. Embora eu só concluísse, dias depois do episódio seguinte, que a solução de meus problemas editoriais, curiosamente, poderia estar ali naquele carrinho de livros, convidativos, de frente à vitrine.


Mas a curiosidade em um sebo ultrapassa a primeira camada dos chamativos “em saldão”. Com aquele laquê literário barato, disposto em pilhas de livros açucarados pelas mais diversas capas e tipologias, a atmosfera do sebo na Consolação era instigante, mesmo quando pensamos que a vida parece ser curta demais, visto as obrigações leitoras tidas, e latentes, nesse período entre chorar como um bebê e pigarrear feito matusalém. No meio do caminho há uma boa estante, que seja.


A entrada nesses ambientes é quase de bom grado, não fosse a infinidade de ácaros, esses tão benignos e intelectuais, habitantes daquelas prateleiras “mundialescas”. Pois esta palavra não existe nos dicionários Houaiss, Aurélio, Caldas Aulete, Silveira Bueno, Larousse, entre outros. Contudo, etimologicamente falando, na pequinância daqueles bichinhos com quatro graus de miopia, essas são possíveis palavras presentes: grandiloquentes e ínfimas. Pequinância e mundialesca. Não fosse essa espécie de ácaro uma invenção, os colóquios em questão passariam a ser catalogados em algum destes dicionários citados acima, transcendendo a condição de mero neologismo.


Conforme a luz do final da tarde ficava para traz, nas tímidas trevas do lugar, entre as enormes estantes – fortes concorrentes à grandeza, curiosa, daquela espécie de estabelecimento –, embrenhei-me dentre os vãos da seção intitulada Literatura Brasileira. Na minha insignificância, dupla, no caso, mal passava a terceira ou quarta prateleira, quando, aos pulinhos, lutava para crescer talvez mais dois centímetros de ar, puxando um pequeno exemplar, em capa dura, de Receita de Ano novo, de Carlos Drummond de Andrade, na quinta prateleira. Uma vitória.


Minuciosamente ali fiquei uns bons minutos, analisando, com zelo, raridades que iam de Rubem Fonseca à Cecilia Meireles. E o pretendente da vez não era achado. O romance A Paixão Segundo G.H, de Clarice Lispector. Meu único desejo, um tanto zoomorfista, lunático, compreendia-se na sanha surrealista de despertar aqueles ácaros intelectuais de seu locus, encastelados, para o auxílio do bisbilhoteiro. A Paixão, depois de degustada por minhas vistas, seria passada à frente, como um presente de aniversário. Este era o objetivo. Mesmo sendo a incerteza a protagonista, pois se desfazer de um livro não é fácil, ainda mais quando se trata de um romance desse calibre.


E no pé da estante, a letra F desmembrava um passado recente de mau-zelo daquele nobre estabelecimento, resistindo, vizinho às almas do Cemitério da Consolação, quando as poeiras encobriam um simpático conhecido, vulgo: Fernando Sabino.


De fato, não fosse a bíblia existencial de uma geração – infelizmente, não a minha –, a alma que reside neste século ficou boquiaberta, ali, naquele rodapé de Literatura Brasileira, pois, submergida na cátedra de O Encontro Marcado, devoto deste, saboreava outros títulos do homem, a bagatelas, ainda sob efeito dos favos de mel degustados no romance do mineiro de Belo Horizonte. Dali, O Grande Mentecapto e A inglesa Deslumbrada foram salvos – para o pesar daqueles ácaros intelectuais, residentes naquele quadrante inferior, de piso Térreo, seguindo a lógica daquela torre “mundialesca”, do neologismo inventado (pelo sr. Pleonasmo, aqui), dá-se o pé da estante. Sigamos.


A surpresa dos títulos em questão rendeu-me dor nas costas, pela quase meia hora na posição que os cachorros costumam defecar. Análises levam a isto. Haja paciência para compreender esta pose – valeria ir ao Kamasutra, não fosse esta deixa. Com dois Sabino’s em mãos, antes de chegar no balcão do caixa, deparei-me com um mostruário de cartões de aniversário. A missão no sebo era dupla, ou tripla. Encontrar a Paixão, de Clarice, encontrar um romance diabético, para passa-lo a um certo diabrete especialista em bordoadas, consumando-os, tanto a Paixão, quanto o livro da “Jéssica K.L., best-seller da Harper Collins apresenta com requintes de prazer e sacanagem…” em presentes de aniversário.


Depois da dispersão com os bibelôs em papel cartão com vedetes dos anos 1950, vintages e provocantes, percebi a tamanha porralouquice e o erro cabal que cometeria caso escolhesse um daqueles logros como apresentação à surpresa. Larguei mão do fascínio com as pin-ups, dirigi-me ao caixa, munido dos dois Sabino’s para, enfim, subir a Consolação com algum consolo e a sensação de missão cumprida.


Contudo, de um certo queixume, voltei ao chão e atentei-me ao desejo inicial, do livro de Clarice Lispector, reascendendo meus afagos literários e as grandes esperanças em checar, pela última vez, a existência daquele livro, coisa que deveria ter sido feita logo no início, ao adentrar o estabelecimento.


Notando a ansiedade do cronista, perguntei à mocinha onde havia de estar aquela Paixão Segundo G.H. Gentilmente, dirigiu-se a mim, com um olhar fescenino, dizendo: “vê aquelas fotos em preto e branco, ali, à direita, é a seção Romances Brasileiros, mas se nenhum exemplar lhe agradar, posso lhe sugerir um ótimo, que tenho bem aqui atrás do balcão…”.

Percebendo a cantada literária mais certeira impossível, entre o balcão que nos separava e o (meu) rubor fácil, na mesma moeda, retribui: agradeço a sugestão, mas, pelo menos por enquanto, ainda estou no meio de um romance, esses de cabeceira, preciso dar cabo deste…


Reconhecendo que tão cedo não me jogaria à Paixão, esta polissêmica, a mocinha colocou meus Sabino’s na sacola do sebo e, mais tarde num jantar, percebi entre as páginas da Inglesa um cartão com seu telefone. Com o truque de paquera, aturdi-me, esquecendo-me de levar o mais vagabundo romance açucarado que jazia naqueles carrinhos de supermercado da entrada, na calçada da Consolação, enfastiados de açúcar e fluídos suspeitos, por apenas dois reais.


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