• André Vieira

Um da Sul, dois no Mundo

\\ ESPECIAIS

Símbolo da primeira safra do movimento Literatura na Periferia crê que o caminho é longo para os “esquecidos pelo sistema” serem vistos como artistas.

Por André Vieira


Reginaldo Ferreira da Silva, o Ferréz (Imagem/ Reprodução: Escotilha).


Aclamado como uma das vozes mais importantes na periferia quando o assunto é literatura, poesia ou abarca a narração de vivências e a contação histórias, não é de hoje que Ferréz, nome artístico de Reginaldo Ferreira da Silva, desponta como nome influente nas casas de publicação. Desde sua primeira autopublicação Fortaleza da desilusão, em 1997, até seu último lançamento Os ricos também morrem, 2015, Editorial Planeta, o autor garante que embora se encante com o poder da palavra e transformação que a literatura propiciou à sua vida e a dos seus, ela nunca foi de fato seu sustento: “Eu nunca vivi dos livros, eu ganhei dinheiro com a marca de roupas, que me trouxeram a outro patamar, me deu uma casa, uma vida melhor, mas os livros sempre foram minha paixão”.


Reconhecido nacionalmente pela “obra coletiva” Capão Pecado — que recentemente foi reeditado pela Editorial Planeta —, o escritor e entre tantas funções apresentador do programa “Ferréz em Construção”, do portal 247, diverge de alguns de seus pares e enxerga uma materialidade explicita nas linhas que escreve e no legado que deixa para seus leitores em suas obras: “Eu tenho a ideia que literatura tem uma finalidade, mesmo que não pareça, eu não consigo escrever uma história só pela história, tem que ter algo que traz impacto na vida de alguém”, conta.


Na ocasião do lançamento da terceira edição da revista digital Frentes Versos, a Discêntrica, convidamos o escritor para responder a algumas perguntas sobre sua carreira, a importância da instituição do livro nas periferias e o movimento de Slams, saraus e recitais que borbulha nas franjas da cidade e foi escola a tantos escritores, editores, diagramadores, revisores e, sobretudo, leitores espalhados por esse país vasto chamado São Paulo. Em tempos do novo coronavírus, a reportagem seguiu os protocolos de distanciamento e mandou a perguntas via e-mail, que de maneira precisa, certeira e justa foram respondidas por Ferréz desde seu lar, no Capão Redondo, na Zona Sul.


Confira a entrevista a seguir:

Frentes Versos: Em primeiro lugar, espero que esteja bem em meio a esse “novo normal” da pandemia, Ferréz. Como tem sido sua rotina no isolamento? Você tem conseguido produzir alguma coisa?


Ferréz: Boa noite, sim estou em plena atividade. Na verdade, produzindo mais do que antes, eu venho pra editora todo dia cedo, fico até de noite, e produzo meus textos, gravo meus vídeos pro canal que mantenho no Youtube, e estou escrevendo 3 roteiros, entre filmes e séries.

Como foi — e é — seu percurso para se tornar um escritor? Houve algum momento essencial ou alguma experiência particular que te fizeram fincar raízes na literatura ou você acredita que o fato de você ser um escritor hoje é um processo natural?

Nunca foi natural, sempre foi uma luta desde 1995. Tudo que faço na minha vida é gerar energia e gastar ela nisso, entre centenas de palestras, aparições, fanzines, entrevistas, e os próprios livros.

Balconista, vendedor de vassouras, auxiliar-geral, arquivista, empresário, dono de selo editorial, finalmente, escritor. Sempre fiel às suas origens. Ferréz, você crê que por você ter vivido múltiplas vidas, conhecido muitas histórias e sobretudo se agarrado com afinco à vida ter sido um dos motivos de ter tocado escritor e ter escrito já no ano 2000 Capão Pecado?

Acho que foi fundamental ter passado por tudo isso, imagina fazer um personagem, sem saber de verdade o que ele está vivendo, suas dificuldades e suas vitórias? Eu tirei muita coisa dessas vivências, e todo dia eu agradeço por hoje estar podendo fazer minha arte com mais tranquilidade, fora da rotina do trabalho tão desgastante que eu fazia.

Alguns dizem que a literatura é uma história que contada por mais de mil vezes nunca fica velha, para outros é uma narrativa que consegue transbordar a essência e as especifidades de uma época para torná-la universal. E para você, Ferréz o que é a literatura e aonde a literatura marginal/periférica se encaixaria neste conceito? Poderíamos dizer que a literatura pode ser também feita por algo que acreditamos?

Eu tenho a ideia que literatura tem uma finalidade, mesmo que não pareça, eu não consigo escrever uma história só pela história, tem que ter algo que traz impacto na vida de alguém, mas é o meu jeito: tem gente que faz o deles, e dá certo, mas eu sempre escrevo por uma razão.

Desde 2004, por meio do programa VAI, editais de publicação de autores estreantes e por iniciativas pessoais de autores e editoras (entre elas as Edições Toró e a Selo Povo) e coletâneas de saraus, as vozes marginalizadas e periféricas têm ganhado mais espaço no mercado dos livros. E no grande mercado editorial? Você acredita que ele tem acompanhado esse movimento com a publicação de Geovani Martins e Jennyfer Nascimento ou com a própria reedição do Capão Pecado para Cia. das letras ou ele ainda tá muito distante da vida e da cultura periféricas?

Eu acho que esse processo dos saraus, dos slams tinha que ter gerado quase uma indústria de textos sabe? É uma pena tudo isso acontecer, e os autores estarem ainda sofrendo para ter uma crítica a seus trabalhos e além dos perrengues para publicar. Tem que ter mais alternativas, mais espaços de publicação, mas a literatura é um nicho, e a de periferia é outro nicho dentro, então temos que lutar para emancipar isso, para realmente fazer acontecer.

Quais foram e são os maiores desafios enfrentados pelo Selo do Povo? Existe muita resistência do mercado de livros, sobretudo por leitores, na adquirição de títulos e de autores que não são deslumbrados pelas grandes mídias? Qual é a importância de termos uma obra, um escritor, um movimento, uma loja, um selo que represente e converse diretamente com a periferia?


Vou te falar a verdade, as pessoas não entenderam que não basta querer publicar seu livro, imagina aqui, eu publico o cara e ele só sai pra vender o livro dele? Veja o Ni Brisant, ele vende livro de muita gente, ele entendeu o processo, que juntos somos mais fortes, mas tem autor que não gosta, acha estranho. [Na verdade] Somos todos vendedores, somos responsáveis pelo mercado, porque não existe nada oficial, o cara só pode encontrar conosco, e um outro cara se encontrar com outro, e assim por diante, formando uma rede. Então se cada um vendesse o do outro, porra, iríamos longe demais.

Um dos maiores problemas quando nós, brancos eurodescedentes, e a academia de um modo geral falamos literatura periférica, poucas vezes nos atemos aos autores ou as obras em questão dessa vertente literária, e sempre nos concentramos nos temas que são explorados ao longo dela (periferia, negritude, espaço de fala, ressignificação do espaço etc.). Por que você acredita que exista esse movimento “desse lado da ponte”?

Tem uma coisa aí de olhar o assunto, e não a obra de arte, de olhar pra vida do cara, e não o trabalho em si, isso é triste, porque como artista o periférico nunca fica legitimado, ele fica relegado ao assunto.

Voltando a falar sobre o mercado do livro, você ainda acredita que a melhor forma de difundir as lutas e vivências da periferia e de autores da periferia seja por meio de algum selo de editora? O ambiente virtual e as redes de divulgação de arte e literatura já seriam autossuficientes para fazer essa comunicação? De maneira geral, literatura no Brasil dá algum dinheiro? (se você quiser falar de alguns projetos que deram certo ou exemplos pessoais, fique à vontade.)


Tem que ter o livro, como meio oficial, mas tem outras formas brilhantes, como o Medium, canais de divulgação por internet e tal, mas tem a questão do glamour da mídia física, do autógrafo.

Eu nunca vivi dos livros, eu ganhei dinheiro com a marca de roupas, que me trouxeram a outro patamar, me deu uma casa, uma vida melhor, mas os livros sempre foram minha paixão.

Quais foram as conquistas para a sociedade e, sobretudo, a periferia brasileira por meio do fomento da literatura marginal (se é que houve)? Você acredita que nesses vinte, vinte e três anos (desde o lançamento do disco “Sobrevivendo no Inferno” dos Racionais MC’s) houve uma melhora na história dos esquecidos, vandalizados e barbarizados pelo Estado?


Sobre a literatura marginal, teve algo histórico [a partir do movimento], as pessoas se reconhecerem na revista, nos textos, nos desenhos, virou um movimento: os caras tatuados, as minas formadas porque leram tal autor nas revistas, teve um impacto importante, e ainda vejo isso na estética de muita coisa hoje, [como nos] muitos saraus formados, [teve] gente que se graduou por causa dessa inspiração. Sobre o Racionais aí tem que perguntar mesmo pra eles.

Quando pensamos num ídolo primeira geração de autores periféricos/marginalizados, seu nome é incontornável, Ferréz. Pensando nisso, qual é o papel do escritor negro e da periferia no Brasil hoje? A nova onda de escritores e artistas nas franjas da sociedade hoje, Geovani Martins, Wallace Andrade, Jennyfer Nascimento (e um universo que não cabe nessas folhas) saberá entender o papel que a geração anterior teve em preparar o terreno e conquistar os corações?

Cara, nós pavimentamos o bagulho, passamos fome nas estradas, que na época eram de terra, sabe? Hoje pessoal anda no asfalto, mas a dureza do nosso texto, o ódio que temos isso é bem anos 90; hoje em dia é diferente. Não é pior nem nada, só [é] outra coisa. Eu odeio polícia, e pronto, odeio estuprador e pronto, odeio sistema e pronto, os caras já trocam ideia demais com tudo isso.

Desde o começo do movimento, há uma predominância de autores homens na literatura marginal periférica. Você acredita que essa se tornou uma marca do movimento ou nos últimos anos? Ou novas autoras tem desmitificado essa tendência?


Era assim, mas agora tem muita mulher escrevendo, muitas trans, acredito que melhorou muito, coisa de Brasil e sua forma de calar as vozes mais importantes, as das mulheres. Falta muito ainda para que elas tenham o espaço merecido, mas vejo mudanças sim.


Por fim, quereria te agradecer Ferréz e te propor um questionamento-reflexão: ao seu ver quais são as barreiras que precisamos transpor para que a literatura marginalizada/periférica/feminista e tudo mais que couber nesse universo imenso seja consumida apenas como literatura e não como “boa literatura” ou “má literatura”? (como a crítica às vezes etiqueta de maneira burra).


Temos que ter nossa própria crítica, nossa própria publicação, e é coisa de crescer mesmo, de deixar a vaidade de lado, já vi movimentos morrerem por causa da vaidade. Temos que ser além disso, literatura é maior que isso.

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