• Matheus Lopes Quirino

Um minuto de silêncio

\\ CADERNO DE ANOTAÇÕES

Vou à sala, peregrinando no deserto à noite, como se tivesse peito para enfrentar os ladrões de turbante e túnica

Por Matheus Lopes Quirino

Por um momento esqueço que existo, como se fizesse parte de um sonho inacabado. Um quadro recém-terminado, com a tinta ainda secando, encostado em algum canto da sala, prestes a ser coberto por uma cortina. Estou queimando de febre, quase a delirar, sento-me no sofá de palha, folheio uma revista antiga, procuro um falso consolo para não ceder ao desmaio. Levanto e ando, suplico uma gota de água, como se estivesse arfando dunas ao horizonte, num deserto quente além oriente. 


Poderia ser um pesadelo. É um estado febril. Sou rápido como a mãe gata a zelar por seus filhotes, tomo o comprimido que intercede a meu favor banindo calafrios, estalagmites, não deixa meu corpo arder em chamas. Levanto da cama silente; ele percebe, acorda e minimiza o inferno para uma fagulha, daquelas que saem dos isqueiros. Vou à sala, peregrinando no deserto à noite, como se tivesse peito para enfrentar os ladrões de turbante e túnica. Minhas mãos estão frágeis. Está muito calor. Olho a chuva fina polvilhar o asfalto amargo da rua. Sofro em silêncio. Ele aparece, sim, lá está ele.

 

Parece saber o que eu deixo de contar. Me leva de volta à cama. Sabe o que fazer, quase com um instinto maternal. Passaram-se meses e a cena volta à cabeça, numa noite de sonhos agitados sonhei com ela, a febre, acordei frenético, como se estivesse dançado horas em alguma pista do underground, sem medir pudores com a bebida. Estou sozinho no quarto, lembro das palavras invadindo os ouvidos. A pílula é puro placebo. São cinco e meia da manhã, o silêncio reina para todos os seres. Me acorde, quero ser feliz. 


Penso acordar de um transe todos os dias. Mas continuo sem saber como sair. Quando? Não é a pergunta. Disfarçamos com sobriedade para simular desatenção. Na verdade é puro achismo. Perseveramos com palavras doces e pensamentos em turbilhão. Sinto falta do quarto escuro, de acompanhar o ritmo da noite. Seu corpo marcado no meu. Nenhuma interrupção. Sonhos tranquilos. Alguma solução para a febre. Um copo d’água. Seus beijos silentes, suas costas nas minhas mãos, cada pelo devidamente contrastado. Loiros e negros, figos e parmas, pães e manteigas, queijos e goiabada, astrologia e ciência, humor & mau-humor, presente e passado, jamais futuro. O futuro é o futuro, você é você. É agora, quando muito nos sonhos, nas histórias feitas a quatro mãos, dois sorrisos e alguns torós tomados debaixo de um mesmo guarda-chuvas. 


Sonho contigo todas as noites. Sibilo seu nome minutos antes de embarcar ao futuro do presente, o futuro do pretérito, o universo paralelo, a terra da lisergia, montar no cavalo de Édipo, me perder no bosque dos sonhos, nas noites brancas que conduzem meus passos por ladrilhos como as ruas que tanto sonhamos andar. O quarto está escuro, vazio. Existe o seu lado da cama, a minha toalha, a nossa chuva que polvilha toda terra, todos os seres. Faço um minuto de silêncio, como uma reza, como um instante suspenso no infinito, só para te desejar, enquanto você corta a goiabada pela manhã, enquanto olha a chuva cair por trás da janela, dá mais uma tragada no cigarro de palha. Me faz arder de febre neste minuto de silêncio.

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