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Um passeio pela década de 10

\\ CRÔNICAS


Por Affonso Duprat, Colaboração para Frente & Versos


Ando acordando um pouco tarde, demorando um pouco mais para encher a xícara de café de outra coisa que não é café. Ando dormindo muito tarde. Estou constantemente a pensar no futuro, mas

não mais o da humanidade, sim o meu. Outro dia uma amiga me disse, enquanto jantávamos em um desses bistrozinhos chic, "É egoísmo geriátrico"? Talvez seja um sinal de lucidez. Sim. Afinal, estou com 75 anos e as coisas começam a ficar mais lentas e parar de funcionar.

Há muito estou fora das redações e fui viver em Nova York com o dinheiro que juntei durante décadas. Não só em redações, mas somando os lucros de todos os fracassos empresariais que tive. Fui vencido e, hoje, estou em um apartamento simples que está sendo reformado por causa de uma infiltração no chuveiro. Mas vamos ao assunto que me chama neste título, simplista, confesso. 'Um passeio pela década de 10'.

O editor deste jornal, revista, suplemento -- ela vive uma fluidez de gênero, seria o caso? Bem, ele me pediu para fazer um resumo da década. Sem tanto rigor, mas com muito lirismo. Afinal, respondi ao rapaz, 'Você sabe que eu sou velho'. Ele retruca comigo ao telefone, diz que também é -- mas de espírito. Queria eu pensar assim aos 20 anos... Ah, meus 20 anos. Mas dispersei novamente.

Aqui de Nova York, pelo que sei, o The New York Times, o jornal mais famoso do mundo, está prosperando. Dizem que a edição impressa já tem uma data limite, estima-se 2026, algo assim -- sempre prorrogam a data. Mas desconfio. Acompanhei a transição de todas as mídias. Desde quando surgiu o e-mail corporativo até o Zap, que, confesso, não tenho.

Mas voltando ao Times, ele ganhou força porque se assumiu. Faz oposição. Trump o odeia, como boa parte dos americanos. Como os leitores do Times. Claro, o jornal é lido pela camada, digamos, culta. Ou era. Hoje, lê-se o Times no smartphone. E só cabeças brancas, como eu, ainda assinam o jornal por aqui -- que cada vez mais está magrinho. Mas ele está estável. Sustenta um bom número de colaboradores, além do time fixo. O time do(s) Times.

Preciso encurtar a prosa, disse ao menino, ficaria falando com vocês, leitores, um bocado caso não tivesse que ir buscar o Lazlo, meu gato, no veterinário. Desculpem-me a franqueza. Bem, passei boa parte do ano retrasado no Brasil, acompanhando o tratamento da minha ex-mulher e da filha mais nova -- que se estropiou no Skate.

Lá, a coisa complicou. Politicamente falando. Entretanto, creio que esse torpedo estourou em um momento onde se há muitas redes para ecoar resistência. Agora é muito mais fácil, por exemplo, tornar viral atos de protesto, etc. Aliás, nas artes diga-se de passagem, creio que nos últimos anos houve um boom.

De Queer Museu a Tarsila do amaral se tornando a maior bilheteria do MASP, tivemos também outras mostras interessantes. Como a do escultor Ron Mueck, que esteve na Pinacoteca com suas esculturas hiper-realistas, em tamanho elefantesco. As artes resistiram e, pelo menos em São Paulo, vi galerias abrirem, o mercado se movimentar e artistas, antes consagrados aqui fora, ganharem mais força de expressão, como é o caso de Cildo Meireles, no SESC POMPÉIA -- em exposição --, e Lygia Clark, que ganhou retrospectiva no MAM.

No MIS, que agora há uma itinerância do Leonardo Da Vince, no puxadinho da Água Branca, bem, teve de Hitchcock a Renato Russo. Grandes exposições que levaram a museu encastelado no bairro grã-fino do Jardim Europa um público diverso, para deleite do pessoal do MIS e fúria dos moradores dos arredores. O museu de popularizou nesta década, trazendo a São Paulo não só grandes exposições, mas também cedendo seu espaço a importantes eventos culturais, como a feira Des.Gráfica, de publicações independentes, ao festival da cultura LGBT, que anualmente promove debates, palestras, exibe filmes, etc.

Gostaria de relembrar mais a década, quem sabe daqui dez anos. Se aqui estiver ainda. Caso os vermes não tenham me devorado, ou, pior, caso eles escrevam por mim.

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