• Matheus Lopes Quirino

Um piparote no centro do universo

\\ ENTREVERES

Ilusãode ótica: as pombas eram alimentadas por um velho mago, conhecedor de artimanhas e comprador de sorrisos.

Por Mathues Lopes Quirino


Era um homem magro, descabelado, com óculos marrons de lentes grossas. Andava pela rua Antônio Carlos. Os caminhões descarregavam verduras na parte de trás da garagem de um restaurante. Aves voavam ouriçadas. Enquanto isso, lá embaixo, era o ronco esbravejado do motor e a fumaça. Bagunçavam o radar dos pássaros. Olhou para cima. Homem com a cabeça nas nuvens – digno de se perder e esvoaçar pelo açúcar delas, exceto em suas tempestades. No predinho, as bandanas coloridas das janelas eram atiçadas pelo vento. Nas varandas: arandelas, luminárias, mandalas luminescentes ainda. 


Oito da manhã: uma xícara de chá desaba da janela, e o chá lava a porcelana do chão da calçada, com a argila da caneca que estatela e esfarela também no asfalto

Ilusão de ótica: as pombas eram alimentadas por um velho mago, conhecedor de artimanhas e comprador de sorrisos. Esquálido tal qual o transeunte, para-o para pedir esmola. Tira da cartola um calhamaço, de flores de plástico.


Pelos dedos lhe saiam confetes e pétalas da cor dos cabelos do namorado ou da namorada, dos homens e das mulheres da rua Antônio Carlos. Era um desatino andando, oblíquo ao destino, afável ao encontro, não necessariamente marcado. As luzinhas estavam acesas nas sacadas do 7’up bar. Era bem cedo.


Um outro rapaz estava na esquina. De casaco cinza, lenço azul e sorriso turquesa. Duas moças, peladas, secavam os cabelos e contavam fofocas em uma sacada, num dos predinhos baixos.


Pombos que foram alimentados pelo mago, viravam gatos, lesmas, dromedários. O homem escanifrado levantava uns centímetros do chão, flutuava, lentes embaçadas, absorto em pensamentos turquesas, amarelos, verdes-limão. Sua magreza, aspirante, levitava-o.

As moças se assustaram. O mago acenava de longe. O homem magro enroscava na copa da árvore da rua Antônio Carlos. O rapaz da esquina empinava pipas…

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